terça-feira, 10 de maio de 2011

Afeto não tem sexo


Não sei nada sobre homossexualidade. Aliás, eu como todo mundo no mundo todo. Uma vez que, cientistas, filósofos, psicólogos, médicos debatem, pesquisam, dissecam (será?) e não têm uma palavra que seja definitiva sobre a origem da homossexualidade (parece que só os religiosos sabem, mas sua resposta é, convenhamos, muito simplista, envolve coisas como pecado, demônio, etc.). Temos, ainda, os puritanos raivosos que esbravejam com asco e só conseguem ver a questão do sexo, como se homossexualidade fosse sinônimo de promiscuidade e não houvesse devassidão entre heterossexuais. Ah, esses se esquecem do afeto. Entendo que homossexualismo não é doença para ser curada. Penso que se acerta ao afirmar-se que haja “orientação sexual” e não opção, pois que, ninguém escolhe ser “hetero” ou “homo”, assim como negro ou branco ou amarelo, o indivíduo nasce assim e pronto. Entendo, ainda, o homossexualismo como um processo natural, onde a pessoa tem uma psicologia diferente da sua anatomia, o que não significa que vá corromper-se em comportamentos imorais. A banalização do sexo, a pornografia, a bestialidade, a pedofilia, a agressividade nas relações, essas sim, são doenças graves em qualquer orientação sexual. A infância e a adolescência intoxicadas pela pornografia que vê e ouve, seja nos “reality shows” ou na grosseria das pseudo-músicas que tratam a mulher como “cachorras”, ora, com relação a isso os “puritanos de moral ilibada” nada falam. Por que o medo das uniões homoafetivas? Homossexuais não têm direito à cidadania? Penso assim: duas pessoas podem viver muito bem numa comunhão de afeto, respeito, lealdade, fidelidade, paixão (e amor, por que não?) independentemente do seu sexo ou orientação sexual. O resto é preconceito, é discriminação. Sexo não é só carne, pensar assim é empobrecer a magnífica sexualidade humana. Sexo é impulso da vida, quando respeitado é gerador da afetividade, respeito e amor, as grandes qualidades a serem conquistadas.

O Congresso não quer? Pois, o STF, em unanimidade, faz que se reconheçam juridicamente as uniões homoafetivas, com direitos previdenciários garantidos, respeitando a dignidade humana de uma minoria sem voz na maioria do Congresso, discriminados como se cidadãos não fossem. Isso não é um “ataque” à família. Meus filhos e netos só têm a ganhar vivendo num país cuja lei trata a todos como iguais. Aprendam, falsos moralistas: isso é democracia! Não tem nada a ver com sexo.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Não se julga um livro pela capa


Mesmo que não se admita, porque é politicamente incorreto, ainda nos dias de hoje, vivemos a separação da sociedade em “categorias”, onde as pessoas são distinguidas, umas das outras, pela cor de pele, por idade, sexo, orientação sexual, credo religioso, local de moradia ou pela conta bancária. Lógico, diferenças existem e isso há de ser positivo, pois é o somatório das diferenças que produz uma sociedade solidária, democrática e sem preconceitos, mas é o desrespeito às diferenças que sustenta as desigualdades sociais e acarreta injustiças maiores. Ora, somos diferentes uns dos outros e pronto! É a sociedade organizada na forma de Estado que deve desfazer essas diferenças visando à igualdade de acesso aos benefícios deste Estado. Aí começam os problemas. Mulheres trabalhadoras ganham menos que homens na mesma função; mulheres negras ganham menos que as brancas; deficientes não têm acesso à maioria dos prédios públicos; homossexuais são discriminados como promíscuos; jovens não são contratados por conta de inexperiência e os velhos não o são porque são velhos e considerados inválidos; a saúde pública, assim como a educação, é melhor para quem tem melhor posição social; isso tudo somado a outros tantos atos discriminatórios que, hipocritamente, são feitos de modo velado.

Penso que isso começa em casa e se reflete em sociedade. Educamos (mal) nossos filhos, através do exemplo próprio, para que julguem sem conhecer, tecendo “pré-conceitos” sobre tudo e todos, principalmente em relação aos diferentes do “nosso” grupo étnico e social. Erradamente julgamos o livro pela capa e não pelo conteúdo. Ora, eu não preciso “ser igual a ti” para ser “tão bom quanto tu”, se é que tu és bom; posso ser eu mesmo, assim como sou, com todas as diferenças evidenciadas entre nós e possuir qualidades, talvez melhores do que as que tens. Essa a grande lição com a qual devíamos educar as crianças, seria o fim do “bullying”, das discriminações, dos crimes contra os diferentes e da desigualdade. Mas, numa sociedade em que “ter” é mais importante do que “ser” a educação será sempre colocada em segundo plano, a educação moral, então, nem se fala nela. Uma lástima!

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O Espetáculo da Violência


Ainda ecoam, na memória dos que sobreviveram, os tiros disparados nas salas da escola no Realengo. Ficarão, por certo, cicatrizes mais profundas que as da pele. Impossível não escandalizar-se, difícil de esquecer e perdoar. Ali está a expressão máxima da violência que nos oprime. Uma violência estúpida dirigida a crianças inocentes, e dentro de salas de aula, que deveriam ser santuários em qualquer língua e para qualquer religião. Talvez não seja possível associar este fato com a violência generalizada que assola o país, normalmente ligada ao comércio de entorpecentes, o que, por si só, já é violência suficiente. Mas, existe hoje, nos meios de comunicação, uma banalização da agressividade e do crime levados a todos como o espetáculo da violência. Mesmo os desenhos animados são absurdamente violentos. O crime, transformado em espetáculo, não serve somente para difundir a notícia, presta-se ao aumento nos números da audiência que cada emissora almeja na luta com as concorrentes. E, infelizmente, creio, serve para criar a imagem do anti-herói. Qualquer criança é optada pela agressividade e vai internalizando a violência. Os super-heróis, quando não matam, arrasam tudo ao seu redor, são solitários, cheios de conflitos interiores, quase sempre fracassados em sociedade e em família. O adulto que sai daí, estamos começando a ver pelas ruas, principalmente atrás do volante.

Conserto para isso há? Para a mídia, talvez um auto-policiamento, como escritor sou a favor de uma imprensa livre, mas com responsabilidade. Para a sociedade, bato sempre nas mesmas teclas: educação e disciplina. Mas, começando dentro da família. Um processo intrínseco, de dentro para fora. Quem educa é pai e mãe, não é a professora. Pais e mães devem educar e impor limites com amor e sabedoria, mas, sobretudo, devem educar pelo exemplo. O rapaz criminoso do Realengo, além do problema mental evidente (ninguém que seja sadio mentalmente comete uma chacina daquelas), era a figura típica do resultado de um lar desajustado. Tanto que nenhum familiar foi reclamar seu corpo para enterrá-lo.

A sabedoria está em tirar-se lição até do momento de desgraça. Quais caminhos seguiremos agora? Os professores não sabem como lidar com a violência, não foram capacitados contra o “bullying”, a manutenção das escolas é precária, como então cuidar da segurança dos alunos contra psicopatas armados? Descobrimos que estamos indefesos. Que fazer agora? Vamos cobrar de quem? Acho que de todos nós, a sociedade, o governo e o povo que o elegeu.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Eternamente Cleópatra


“Em seus aposentos no palácio em Alexandria, na foz do Nilo, Júlio César, cônsul de Roma, desenrola um tapete que ganhara de presente. De dentro dele salta Cleópatra, rainha adolescente, fresca, cativante, escultural. O velho cônsul apaixona-se.” E junto com ele, todos os meninos como eu era. Quem poderia resistir? Cleópatra era Elizabeth Taylor. Aos 31 anos. Meu Deus! Aqueles olhos azuis..., ou seriam turquesa? Ou acinzentados? Aquela pintinha na bochecha... Liz Taylor, a última estrela. O filme era proibido. Burlei a vigilância do porteiro, que por sinal era meu avô, e me arrojei sala adentro, só para ver Cleópatra. O filme de 1963, do diretor Joseph Mankiewicz, com o Rex Harrison fazendo o velho Júlio César, o Richard Burton, era o bonitão do Marco Antônio, e ela, a diva, Liz Taylor era... Cleópatra. Dela, a Liz, eu já havia assistido “Um lugar ao sol”, com o Montgomery Clif, fazia uma adolescente meio sem sal, mas o filme é bom. Agora, Cleópatra foi um arraso. Na saída, eu ouvi alguns comentários de umas carolas dizendo: “Mas essa mulher era uma galinha! Dava para todo mundo”. Falavam da Cleópatra, eu acho! Ou queriam estar no lugar dela, afinal, eram carolas e, por isso mesmo, reprimidas. E a Cleópatra Taylor passou a perturbar os meus sonhos adolescentes. Uns historiadores andaram dizendo que Cleópatra não era assim, como a Liz, que não era tão bonita e nem devassa, mas que tivera filhos com os ditadores romanos com intenção de estabilizar as relações políticas no Oriente Médio. “Que se danem vocês, seus historiadores xaropes! Vão se meter com seus livros!”. Assisti depois os filmes mais maduros da Liz, “Gato em teto de zinco quente”, “Quem tem medo de Virgínia Wolf?” e “Butterfield 8”, nos dois últimos ganhou o Oscar de melhor atriz. Era uma estrela. Não era só cara, bunda e peito, como a grande maioria é hoje. Era uma grande atriz. Agora dizem que Elizabeth Taylor morreu do coração com 79 anos. Prestem atenção: Uma estrela não morre! Liz Taylor está fixada no nitrato de prata da película cinematográfica para sempre. Saindo de dentro daquele tapete. Eternamente Cleópatra

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Nome aos bois



Chega! Alguém tem de pagar essa conta na justiça! Existem corpos em putrefação misturados à lama no meio das ruas extintas. Automóveis foram parar nos telhados das casas e a maioria das casas não existe mais. Hoje, quando escrevo esta crônica, temos em torno de 720 mortos, mas, pelo visto, o número vai chegar ao milhar. Muitos corpos jamais serão encontrados e milhares de pessoas vão penar sem abrigo certo por muito tempo. A enxurrada que varreu a região serrana do Rio é o tema de uma crônica de um desastre anunciado. No entanto, apesar da dimensão histórica, uma chuvarada assim só é desastre se tiver gente por perto. Os meteorologistas dizem que sempre foi assim, e não é só por causa do “aquecimento global”. Vivemos num país tropical (pelo visto, nem tão abençoado como se quer) e sempre estivemos expostos às intempéries. Mas, se sabemos que existem riscos, por que as pessoas constroem suas casas nas encostas, nos barrancos dos rios, enfim, em áreas de extremo perigo? De quem é a culpa, afinal? Bem, muita gente culpa a Deus, afinal, não foi Ele que fez a natureza como é? Outros culpam ao povo mesmo, pois, quem mandou querer morar em áreas de risco? Outros, ainda, querem culpar o Estado. Ora! Entendo que nenhum tribunal pode processar o Criador. Prerrogativas de quem tem endereço incerto e não sabido. Quanto ao povo..., bem, este já está cumprindo pena por sua imprevidência de morar onde não deve. Ah, tem o Estado! Mas, Estado, assim só, é um conceito muito vago e abstrato. E quanto se trata de responsabilidade penal, então, não se atinge ninguém. A Justiça (que também é Estado) deve colocar um fim nesta impunidade, dando nome aos bois, iniciando por responsabilizar as “excelências” que foram eleitas para reger e fiscalizar as municipalidades. Comecemos assim: quem autorizou as construções em áreas, notadamente, de risco? Se forem construções irregulares, quem não fiscalizou e não retirou os invasores (hoje vítimas)? É fácil andar de helicóptero, sem sujar os pés na lama, e prometer mundos e fundos aos desassistidos da sorte. Quero ver um prefeito com coragem (eu ia dizer outra coisa) para tomar decisões impopulares, as que não dão votos, mas que podem salvar vidas. Acho que não verei isso tão cedo. As desgraças ainda podem continuar, pois o verão não terminou. Mas, no ano que vem, pelo histórico, tem mais. E, com certeza, ninguém será punido.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Apoteose


Quase ao final do ano passado, em 29 de novembro, Mário Monicelli suicidou-se em Roma. Aos 95 anos, o cineasta, um dos “maestros” da comédia italiana, arrojou-se pela janela do Hospital San Giovanni, onde estava internado para tratamento de um câncer na próstata.

Apesar da obra vastíssima, a crítica internacional sempre o colocou num segundo plano, como um inferior a Fellini, Pasolini, Visconti, Bertolucci, Rosselini, Tornatore e até a Roberto Begnini. Uma tremenda injustiça. Desde 1935, quando lançou “I ragazzi della Via Paal”, com Alberto Mondadori, seu trabalho oscilou entre a comédia e o drama. Dirigiu com maestria os melhores da Itália: Vittorio Gassman, Cláudia Cardinale, Totó, Sophia Loren, Mastroianni, entre outros tantos.

Seu drama era sempre denso e a comédia, deliciosa. Para ele o riso do povo era uma arma letal. Deixou isso plasmado em 1971 em “A Mortadela”, com a ainda exuberante Sophia Loren, interpretando uma bela napolitana barrada no aeroporto de Nova Iorque por que tinha consigo uma mortadela gigantesca, presente para seu noivo; em 1992, com “Parente é Serpente”, com Tommaso Bianco, ele nos mostra o desinteresse das famílias pelos seus velhos e a superficialidade das relações de parentesco. Mas, sua melhor comédia é de 1966, com Vittorio Gassman, “L’Armata Brancaleone” (O incrível exército de Brancaleone), onde um pequeno grupo de vagabundos esfomeados, durante a Idade Média, parte numa aventura para tomar posse de umas terras no sul da Itália, entre encontros e desencontros, duelos bizarros, Monicelli nos dá uma demonstração de resistência tenaz dos pequenos, dos explorados e excluídos.

O seu melhor drama é de 1963 com Mastroianni, “I Compagni” (Os Companheiros), contando a emblemática luta de um intelectual desempregado, o professor Sinigaglia, na sua tentativa de organizar os trabalhadores de uma fábrica de Turim, no final do século XIX, quando a exploração do trabalho operário não encontrava nenhum limite. O filme proibido durante o período militar, representa o papel do intelectual engajado nos problemas de seu tempo e da sua sociedade, que entende que sua voz há de estar à serviço do povo, e não de interesses privados, mesmo que sejam dos gabinetes de governo, portanto, livre para criar como queira. A figura deste intelectual hoje está esvaziada, ele já não se insurge contra a corrente, pois sua arte é patrocinada pelo poder. Apesar de décadas passadas, o discurso é atual.

Monicelli fechou sua última cena num final apoteótico, da janela do quinto andar do hospital salta sobre o abismo que separa a náusea de uma existência medíocre do sentimento de ser realmente livre para viver as próprias escolhas. Só quem perde com sua partida somos nós, os cinéfilos.

Corta! Grazie, maestro, Monicelli!

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sobre virtudes e caráter



O assunto Ronaldinho Gaúcho no Grêmio, como quer sua Diretoria, é tema do passado. E deve mesmo ser assim. Não se pode valorizar demais as coisas que não trazem nenhum benefício para a sociedade. No entanto, fica do caso uma lição a ser melhor analisada.

Todos os homens trazem em si a capacidade de adquirir qualidades morais valiosas que os façam melhores na vida de relação tanto com os outros quanto com a sociedade em que se vive. A essas qualidades morais dá-se o nome de virtudes, coisas como: ética, urbanidade, caráter ilibado, lealdade, integridade; enfim, as virtudes de um homem de bem. Mas, se é fácil descrever as tais virtudes abstratamente, a complexidade das relações humanas, as exigências da vida, no cinismo deste século, superficiais e supérfluas, tornam a prática destas virtudes uma atitude muito difícil.

As virtudes só se aprendem se tivermos o exemplo delas na nossa formação. Ninguém aprende a cantar se nunca ouviu música. Mas, o pouco que se tenha adquirido precisa ser conservado. O homem de bem precisa ser vigilante consigo mesmo, sempre. O menor deslize pode arranhar sua imagem perante o mundo. Como diziam os romanos: “Não basta à mulher de César ser mulher de César, é preciso parecer mulher de César”. Um caráter ilibado, um bom nome, são coisas difíceis de conquistar, em compensação são muito fáceis de perder.

As instituições são sempre superiores aos homens que as servem, mas figuras públicas deveriam cuidar melhor de sua imagem, uma vez que sempre acabam por servir de modelo a alguém. Seja de um astro dos campos de futebol que não se dá ao respeito descumprindo a palavra empenhada, até um ex-presidente que trata a coisa pública como se privada fosse, brindado por autoridades subservientes com benesses do Estado, como férias em área restrita e documentos a que não fazem jus seus familiares. É sempre lastimável ver o ser humano buscando mais o “ter” antes de “ser”. O tesouro do homem está onde está seu coração. Aos irmãos Assis Moreira, pois, só se pode desejar dinheiro, todo o dinheiro que possam amealhar; e ao senhor ex-presidente, ainda no deslumbramento do poder, que tenha boas e longas férias.

E não se fala mais nisso, são coisas pequenas de gente pequena.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Para a cidade que me acolheu


Canoas já não passa

Canoas passava lentamente pela janela do meu ônibus. Travessia obrigatória para quem vinha do Vale: Colchões Trorion, Praça do Avião, Aeroclube, as casinhas brancas dos oficiais do QG da Aeronáutica, lá estavam os pontos de referência no meu caminho de Sapucaia até o trabalho de metalúrgico em Porto Alegre. Todos os dias, apenas um olhar de quem sempre passa e nunca fica. A mim parecia bucólica, embora apressada, convidativa, porém. Na bolsa, a marmita preparada pela mãe, com o carinho que só as mães têm; na cabeça, os sonhos de guri; nas mãos, sempre um livro, qualquer que fosse, leitura difícil sob os trancos e solavancos do ônibus sobre a rodovia de uma só pista: a “federal”. Depois o bairro Niterói, espraiado, com cinema na beira da “faixa” e, então, o rio Gravataí e Porto Alegre. Canoas novamente, só à noite, no retorno para casa.

“Quem sabe, um dia, ainda não vou morar por aqui? Numa daquelas casinhas brancas do QG?”. Pois é! Nosso único destino é traçar os próprios caminhos. Cresci, estudei, me fiz homem, estudei mais, ganhei o mundo trabalhando nas asas da Força Aérea, voltei depois de vinte anos. E não é que terminei por morar numa daquelas casinhas brancas? E só aí, então, descobri Canoas. Vibrante, crescente, operosa, fragmentada, dividida pela rodovia de trânsito alucinante, espremida pelos muros do trem, assustadora aos olhos que só vêem contornos. Mas, uma cidade como Canoas não é feita só da dureza do seu concreto. Ah, os parques! As praças! Os ipês, os jacarandás, as timbaúvas, os majestosos guapuruvus, com eles a vida passa mais devagar.

E as gentes daqui, então? Esse povo é o sal da terra, é o que dá gosto de aqui viver. Fui ficando, o lugar me aceitou, acabei igual entre iguais. Aqui conheci pessoas que fazem cultura em alto nível: escritores, poetas, artistas, atores, companheiros de letras e artes. Aqui plantei meus amigos, meus discos, meus livros e... algumas árvores. As raízes de tudo isso cresceram, fixaram-me neste solo. Meu neto nasceu aqui, o primeiro membro canoense da família. Canoas já não passa lentamente por mim, estou nela como ela está em mim. Uma simbiose de respeito e afeto que já ultrapassou a barreira do simples “morar”, Canoas e eu vivemos agora uma relação de “ficar”.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Nós, os medíocres


Que ninguém se ofenda ao ser chamado de medíocre. Ordinário, mediano, comum, sem relevo, é isso o que significa medíocre. Não é aquilo que está abaixo da média, mas aquilo que não atinge um “status” melhor. O mundo inteiro é habitado, na grande maioria, por medíocres. Abaixo dessa média já é a área de atuação dos idiotas, dos imbecis, dos parvos, dos “bobos de aldeia”. De vez em quando, Deus, penalizado com a nossa mediocridade, manda-nos uns e outros bem acima da média. Alguns iluminados como Beethoven, Mozart, Da Vinci, Lutero, Descartes, Allan Kardec, Spinoza, Florence Nightingale, Machado de Assis, Chico Xavier, Victor Hugo, Einstein, Madre Tereza, Pelé, Elis Regina, Elvis, e por aí vai entre outros tantos admiráveis. Homens e mulheres que romperam com genialidade a barreira do medíocre e ficaram entre os melhores naquilo que faziam. Tornaram-se um padrão de excelência, acima de todos os outros, longe do lugar comum. Ah, ah, você percebeu, não é? A não inclusão de políticos na lista acima é proposital.

Pois é! Nós somos medíocres. Vivemos mergulhados na mediocridade. E como medíocres, nossas escolhas hão de ser também medíocres. Por que, então, tanto espanto com a eleição do Tiririca? Não dizem que a índole do brasileiro é ser “alegre, informal e sacana”? Pois aí está! E por que não o Tiririca? Se já tivemos o exótico Juruna, o Agnaldo Timóteo, o Clodovil, todos sempre tão mal vistos. O que faz dele, o Tiririca, um sujeito pior que outros semianalfabetos já eleitos? Ora, Tiririca é um palhaço, e como tal, se é que os palhaços ainda são assim, há de ter a sensibilidade para comover-se com as necessidades do povo. Não temos saúde, nem segurança, muito menos educação, que é o que salvaria tudo. E estamos aí a discutir os “royalties” do pré-sal. Ora, façaofavor, o povo não sabe o que é pré-sal, que se dirá de “royalties”. Vocês perceberam a mediocridade da campanha eleitoral para presidente? Tudo tão rasteiro como briga na feira. Todos tão iguais, todos são tão “bons”, todos lutaram contra a ditadura, todos fizeram “isso e aquilo”, são tão “religiosos”. Mas, acabam discutindo se foi “bolinha de papel” ou não o que “agrediu” um candidato... Tudo tão vazio. É isso que merecemos. Nós é que temos de crescer, sair da mediocridade, deixar de ser provincianos admiradores e idólatras dos que nem são tão bons e melhores. Lembrem-se, quem faz a nação não são os políticos, somos nós.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O Ovo da Serpente


O título deste artigo tomei de empréstimo do excelente filme de Ingmar Bergman que trata do horror da alvorada nazista ainda na República de Weimar. Trata-se de uma metáfora sobre a origem do mal que se vai instalando no tecido social. Conhece-se a origem, mas nada se faz para extirpá-lo, como esmagar o ovo antes que a serpente nasça. Assim a violência cresce ao nosso redor, atinge um nível de quase epidemia com absurdos índices de mortalidade. E nós? Estamos aí, vivendo a pasmaceira do egoísmo que nada vê ao seu redor, a não ser que a coisa seja conosco mesmos. Somente quando a violência atinge elevados índices de audiência na mídia, com casos pontuais de gente famosa, conseguimos dizer um “Oh! Que absurdo...!”, mas assim mesmo sem muita convicção. Isso porque convivemos com a violência e, insensíveis, não a percebemos mais. Não falo em crimes graves como assaltos e mortes e venda de drogas; aceitamos pacatamente as transgressões no trânsito; as agressões dentro das famílias; as atitudes anti-sociais dos que não respeitam filas em banco, em órgãos públicos, nos transportes coletivos; na exposição da infância à pornografia liberada, e à mostra, nas bancas de revista; daí se passa para o abuso sexual, violência psicológica e por aí vai. A causa dessa ruptura no tecido social não está só na impunidade, na falta de segurança pública, no desenvolvimento econômico precário ou na má distribuição de renda. Porque a causa determinante é intrínseca, está no comportamento do indivíduo.

É na formação da personalidade do homem, lá na tenra infância, onde está a violência “ab initio”, o ovo da serpente. Numa família desestruturada, pais que não assumem a postura de educadores, que não têm coragem de dizer “não” para combater as más tendências, estão moldando o transgressor de amanhã. Não se pode combater a violência somente com ações punitivas e repressivas como o aumento de efetivos policiais, a construção de presídios, desarmamento, diminuição das desigualdades ou reforma do judiciário. São necessárias ações preventivas, do engajamento da sociedade como um todo, dos pais, familiares, professores, governantes, das religiões; ora, que todos se façam presentes na educação e formação das crianças, mostrando-lhes o caminho da civilidade, da urbanidade, da alteridade e do respeito ao próximo. Sem isso, ainda vamos chorar por muitos anos por um mundo melhor, porque este em que vivemos ainda vai piorar muito. Pensem nisso.

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