sábado, 3 de dezembro de 2016

MEU DESERTO - Apresentação por Jairo Luiz de Souza


Gerson Colombo nos apresenta um deserto totalmente poético, cheio de emoções latentes. Um deserto que deixa na areia escaldante, pegadas que nos levam para um Oásis onde as palavras lavam a alma, onde podemos ver a poesia no sorriso vazio e sem amarras de negra Lúcia.

A cada página, uma máscara caindo, deixando mostrarem-se os anjos e os demônios que carregamos dentro de nós. Colombo fala da aridez da vida com propriedade, narras as mazelas do ser humano com uma ironia sutil e inteligente. Sua poesia no sorriso vazio e sem amarras de negra Lúcia.

Meu Deserto é uma obra que nos cutuca, que nos remete a um universo de infinitos olhares sobre a vida. Meu Deserto é provocativo, te faz pensar, te faz se emocionar. É um grito, um uivo estonteante, onde o autor solta sua voz gutural e lírica.

Convido os leitores para desfrutarem a poesia de Gerson Colombo no seu imenso e profundo deserto. Tirem os sapatos e andem ao lado deste poeta. Descubram juntos a simplicidade da alma. Reflitam por meio da poesia em brasa que Colombo coloca ao alcance de todos nós. Pisem na areia do deserto e sintam os mistérios do ser humano. "Meu Deserto", o poema que dá título ao livro é de deixar o leitor em estado de "SOLILÓQUIO".

Com certeza você sentirá a necessidade de confabular com você mesmo. Depois da leitura desta obra, você terá a chance de reconstruir um novo olhar sobre a poesia. Na galeria dos grandes petas brasileiros, podemos inserir no contexto o nome de Gerson Colombo. Deixe na estante um lugar reservado para "Meu Deserto". O leitor não irá se arrepender de conhecer o universo poético que existe nas pegadas deixadas na areia por Gerson Colombo..

- Jairo Luiz de Souza

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Nenhum homem é uma ilha

               





            A frase título é de um poema do inglês John Donne. “Nenhum homem é uma ilha; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram também por ti.” Inspirado neste belíssimo e icônico poema do séc. XVI, Hemingway escreveu seu clássico “Por Quem os Sinos Dobram”, Thomas Merton escreveu “Homem Algum é Uma Ilha” e o imortal Raul Seixas compôs a música “Por Quem os Sinos Dobram”. Um poema que nos faz lembrar o que disse Aristóteles em “A Política”: “...o homem é um animal social. O homem que por si só se basta, não é homem; ou é um deus ou é fera.” Pois, então, nascemos para viver em comunhão com os outros, nascemos para uma vida de relação. Então, por que a solidão é cada vez mais presente e constante? A afetividade é mais e mais distante?       

            As relações virtuais e a tecnologia substituíram o afeto do toque e da companhia física. Poucos são os que têm paciência de escutar sem atropelar o outro com seus próprios problemas. É fácil encontrar-se grupos de pessoas sentadas à mesma mesa, em silêncio permanente, enquanto os dedos, sem parar, tamborilam o teclado do celular. Nem os garçons são mais chamados para aquela ajudinha com a fotografia do grupo, o “pau de selfie” substitui o braço amigo. Inumeráveis amigos no “face”, mas nenhum ombro para chorar. As poltronas eletrônicas substituem as mãos do massagista, onde regula-se o tempo e a pressão para movimentos repetidos pelo corpo, sem contato humano, ... em absoluta solidão. Conquistamos tecnologias e nos perdemos uns dos outros. Os fones metidos nos ouvidos nos desobrigam das gentilezas dos sorrisos ou dos “Bons Dias”. É o meu mundinho privado. Afastem-se todos vocês que não fazem parte do meu diminuto círculo de afeições! Cada vez mais diminuto. Substituímos a alteridade, o respeito pelo outro, pela indiferença. Mas, ainda é a voz humana que acalma, um abraço é sempre acalanto, um sorriso nos enche o coração de alegria. Se eu me dispuser a encontrar os outros, acabo encontrando a mim mesmo. Pode ser que nenhum homem seja uma ilha, mas, por enquanto, a humanidade é um imenso arquipélago. 

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Gerson Colombo fica em 3º Lugar em Concurso Internacional

É com alegria que compartilhamos com nossos leitores que o autor Gerson Colombo ficou em 3º lugar no 27º Concurso Internacional de Contos de Araçatuba - SP, com o conto "Pomo da Discórdia", integrante da obra A Empreitada. Confira! http://goo.gl/308nLh

Leia um trecho do conto "O Pomo da Discórdia", presente no livro A Empreitada:

"(...) Também estava lá o negro Adão, homem forte, mas não muito grande, educado, que não olhava nos olhos de ninguém e de quem não se conhecia passado, era homem de pouca fala. Mas, um que me assustava, era um certo Miro, um pelo duro, atarracado, de barba hirsuta, olhos maus, mesmo calado tinha jeito de encrenqueiro.

Ora, no galpão impera a civilidade. Todos são aceitos, todos são bem-vindos. Todos são ouvidos e todos podem ouvir e falar, só não o faz quem não quer. O fogo nativo, crepitando no chão, é o foco central daquela hospitalidade rude, mas sincera. Não há, ali, lugar para preconceitos. Os nacos de carne assada são iguais, os pratos de arroz com charque têm a mesma medida, sejam dados ao patrão ou a qualquer dos peões, a cuia de mate passa de mão em mão, sem distinção, aproximando e irmanando companheiros de mesma sorte ou infortúnio. Fora do galpão, na faina diária, a vida deve ter suas diferenças, as responsabilidades, de mando e de fazer, são desiguais só assim. Mas, à noite, no galpão, opera-se na mais pura lei de igualdade.

Os minutos se escoavam entre as conversas e as músicas do Plauto, a cuia do mate passava pela roda. A chaleira preta de fuligem chiava sobre a trempe ao lado de uma grande panela onde o arroz, feito para o jantar, ainda fumegava, uma sobra de um quarto de ovelha, atravessado num espeto largo, derretia suas gorduras sobre o braseiro, tchiiiiiii, impregnando o ambiente com seu perfume adocicado. Vez ou outra, um se aproximava e passava a faca pela carne, tirando-lhe uma ponta mais assada, e logo sêo Antero passava a salmoura pelo talho com um molhozinho de ramos de carqueja.

“Augusto, chê...” é o velho Libório quem pergunta “... e como foi a carreira do sêo Josino no domingo?”, “Pois! Que espetáculo, chê!...” responde o peão tragando o palheiro e largando uma fumaceira azulada sobre sua cabeça, “... quando largaram, se vieram parelhitos, no más! Isso até duas quadras, quando o tordilho do velho Silva se pôs na frente. Ah, mas com três quadras aquela égua do Flores foi entrando por fora e encostou, e se foi, à la cria, até a raia, com um corpo todo de frente.”, “É! Aquela égua é para tudo. Que qualidade!”, “Eu mesmo ganhei alguns mil réis naquela cancha, mas houve quem forrasse o poncho...”. Um outro perguntava ao pai pelas notícias do rádio, se ia mesmo haver guerra na Orópa, se o doutor Getúlio não queria juntar de novo uma gauchada para ir dar tunda nos alemães; outro, a um canto, perguntava se já não tinham visto o caminhão Chevrolet novo do vizinho, o sêo Ribeiro; alguém falava que os moirões da cerca da invernada do fundo estavam comidos de cupim, que o aramado logo ia abaixo; havia reses com berne precisando de banho de Creolina; a geada estava maltratando o pasto das invernadas; em tudo o pai prestava atenção e só com o olhar se acertava com sêo Antero, o capataz, para que de tudo desse providência; e eu, ouvia, e maravilhado aprendia.(...)"

domingo, 1 de junho de 2014

ENCONTRO COM ESCRITOR - 30ª Feira do Livro de Canoas


Vamos bater um papo sobre literatura, minha obra e sobre o que surgir no momento!

O encontro será na 30ª Feira do Livro de Canoas, no dia 5 de junho, às 9h na Praça da Bandeira.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Pequena exortação à vida

Anda, minha gente, desperta! Olha ali, é a vida passando! Os sabiás já enchem os dias, desde cedo, na madrugada, e o verão ainda nem é. Meu coração tem a pressa e a necessidade de preencher os vazios, tem a ânsia de saltar para frente; talvez o corpo, já ferido e doloroso, não responda como deve; ou talvez saltar ficou para trás com o menino que fui. Mas, a alma, essa sim, ainda quer cantar com os sabiás, e eu nem sabia. Olha, gente, tudo é irreal, até a angústia é impermanente. A esperança está dispersa. A única verdade é juntá-la. A expectativa por tudo que é bom e simples, por tudo que é belo. Os netos e seus avós; crianças rindo e brincando, todas iguais, sem classe social; cheirinho de chiclete e livro novo; a saudade do amigo distante; o romance que se quer lançar e se torce para que dê certo; a chuva mansa que refresca os dias; ouvir a brisa boa que refresca as tardes penteando a copa das árvores; ver quem lança mais longe, às cusparadas, os caroços de melancia; escutar a Elis e o Tom, “... é pau é pedra, é o fim do caminho...”; mergulhar na alegria do George, “Here comes the Sun...”, “My sweet lord, aleluia!”; dividir uma garrafa de vinho com quem se ama, numa mesa de comida simples; conseguir o acorde certo no instrumento que se toca; trazer em si a alma inquieta do filósofo; soltar peão com o neto..., ufa! Mas, são tantos desencontros. Alguma coisa está fora da ordem para a qual fomos criados. Como nos mutilamos, Deus, ao longo da vida. E nos fechamos e não vemos que a vida passa.
            A dimensão de tudo agora é virtual. A culpa de tudo que dá errado é do “sistema”, um ser amorfo, sem rosto, estúpido, pois erra sempre e em todos os lugares. Ninguém mais é responsável por seus erros, continuamos todos adolescentes. Os abraços são as palavras escritas, sem convicção, na rede social. Mas, o beijo e o cheiro do outro continuam essenciais. Estamos ficando cegos e surdos apressados, com os fones do celular enfiados nos ouvidos. Não queremos, mas nos embrutecemos; não queremos, mas estamos virando coisas, números; espremidos nas ruas cheias, já não vemos a beleza que passa, as crianças que choram, os velhos perdidos, vagos, nem vemos a indigência sincera que precisa. Gel no cabelo, paletó e gravata, podemos fazer tudo sozinhos. Arrogantes, orgulhosos, doentes da alma que aos poucos se perde, nos arrastamos para a indiferença, para o insensível. Desvalorizamos o humano e queremos mais “ter” do que “ser”. Quando a tristeza bater, com o nome de “depressão”, tomara não seja tarde para buscar qualquer coisa que faça sentido na vida.
            Anda, minha gente, desperta! “A vida é mais que o alimento e o vestuário. Olhai as aves do céu; elas não semeiam, nem colhem, contudo Deus as sustenta. Vós não sois mais que as aves? Não vos inquieteis sobre o vosso vestuário. Olhai os lírios do campo, eles não tecem e não fiam, no entanto, vos afirmo, que nem Salomão, em toda a sua glória, vestiu-se como um deles. Se Deus vestiu assim a erva do campo, o que não fará por vós, homens de pouca fé?” O verão ainda não é, mas as crianças e os pássaros já o sentem, vivendo a simplicidade. Sem desesperança, sem mentiras.
            Pensem nisso.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Vergonha

                               
(Mais uma palhinha de "A Empreitada")

                                Já não chove àquela hora. Pela janela aberta do último ônibus da noite, chega, às narinas de Osvaldo, o cheiro da terra molhada pela chuva da tarde. Chuva mansa, chuva boa, chuva de lavar telhado; chuva que, durante a tarde, caindo sobre as folhas de zinco da fábrica, ensurdeceu mais que o matraquear das máquinas. A cabeça pesa-lhe agora, mas não é sono. Sente peso no estômago e náusea, mas não lhe vem o gosto amargo da comida azeda da marmita requentada no seu almoço de operário. Os braços pesam como chumbo, mas não é pelo cansaço da hora extra. Aquela última hora extra, cumprida no silêncio aterrador da velha fábrica, já vazia de mãos e almas. Mas, suas mãos, naquela última hora, produziram a última peça e, só então, deixou esvaziar a alma. Pesam-lhe a cabeça e os braços com um peso de uma angústia, um medo, uma insegurança, uma dor, uma vergonha. Em casa, os dois filhos pequenos dormem aconchegados à mãe que espera. Não suportaram o sono na espera pelo pai. A casa pobre, tijolos sem reboco, um corpo com veias à mostra, infindável construção. Um lar feito aos poucos, com o pouco das sobras anuais. Hoje, Osvaldo leva dinheiro para casa. Dentro da bolsa de operário, ao lado da marmita vazia, descansa o envelope com o último pagamento. O ônibus, praticamente vazio, já chacoalha pelas ruas esburacadas de seu bairro, gente pobre e excluída das benesses da administração pública. Ao cheiro da terra molhada se junta o gosto de sal de uma lágrima. Lágrima furtiva, que nunca vem fácil aos olhos de quem tem vergonha. Osvaldo engole o gosto de sal quando se aproxima da sua parada mal iluminada; parada que projeta um trapézio de sombra sobre os buracos alagados da sua rua pobre. Como explicar aos filhos e à mulher? Amanhã ele já não trabalha mais. Dentro da bolsa de operário, ao lado da marmita vazia, descansa o envelope com o último pagamento. Envelope com um pouco de dinheiro a mais que o costumeiro; o dinheiro dos acertos finais do aviso prévio e o começo da angústia, do medo, da insegurança, da dor e da vergonha do desemprego.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Clipping - Jornal ABC - 14/07/2013

O recorte abaixo é de publicação do Jornal ABC do Rio Grande do Sul, de domingo, 14/07/2013, na coluna Sala de Leitura, de Jane Regina Mathias.


A Empreitada - (Ed. do autor, 123 p., 25 reais) Gerson Colombo. O livro reúne doze contos cuja linha mestra é "a de uma luta sem quartel, que o homem deve empreender para vencer suas más tendências, conhecendo a si mesmo, reforçando-se em suas  virtudes e combatendo em si os próprios vícios morais", conforme ressalta o autor na apresentação da obra. Os contos falam sobre luz e treva, a violência de supostos humanos sobre seres indefesos, a fraternidade em xeque, a velhice, os absurdos da convivência, o trabalho mal remunerado, a infância marginalizada, a sabedoria da natureza, o desgoverno oficial. Vergonha é um dos contos mais curtos, mas nem por isso deixa de ser um dos mais profundos. São palavras escassas, bem escolhidas, para relatar uma realidade cruel: a dor infinita de um pai de família que perde o emprego. Em Cenas Curtas Colombo fala sobre os absurdos encontros e diálogos, entre pessoas que, lamentavelmente, são bem reais. São situações estranhas a que todos se sujeitam num mundo como o atual, no qual ninguém parece querer ouvir ou entender o que o outro diz.


sexta-feira, 21 de junho de 2013

Chegou a Primavera, estão voltando as flores.





       Acabou-se a letargia do sono em “berço esplêndido”. O Gigante acordou é o que dizem as ruas. E ao que parece para uma longa vigília em favor do bem comum. Quem tiver ouvidos de ouvir que ouça. A minha geração tremia, de raiva e não de medo, nos tempos da repressão, do abuso de poder, da tortura, do “sabe com quem está falando?”, da inflação mascarada, do uso da Previdência para construir pontes e estradas, da corrupção abafada pela censura, das eleições indiretas. As ruas, então, se encheram como agora. “Diretas já!”. Voltou o poder do povo e para o povo. Mas, o povo foi traído novamente. De volta às ruas, então! Agora de caras pintadas: “Fora Collor!”, e o presidente caiu. E os exilados, presos e torturados chegaram ao poder. “Agora a coisa vai! São políticos de boa cepa!”. Qual o quê... Agravaram-se a corrupção, a impunidade, a violência urbana, uma exorbitância de impostos sem o retorno devido, a Educação em petição de miséria, a troca de apoio no Congresso por dinheiro, condenados julgados gozando de liberdade, o caos na saúde pública, a delinquência juvenil impune e sem controle. Fica o gosto amargo de saber que os nossos eleitos não nos representam. E as obras para a Copa? A Grêmio Arena, particular, sem dinheiro público, erguida do zero, ficou em quatrocentos milhões; a “reforma” do Maracanã, obra pública, custou um bilhão de reais. A senhora “presidente”, em Roma, hospedou-se em hotel de luxo, com sua comitiva, ao custo de dezenas de milhares de reais, desprezando nossa Embaixada e a inteligência do povo. Temos mais? Ah, tem... Tem o mensalão, com a “eminência parda” do Lula, inexplicavelmente fora do processo, tem o Renan, tem o Feliciano com a “cura gay” (Meu Deus!), tem a Hidrelétrica de Belo Monte, temos os foros “privilegiados”. Temos desigualdade, enfim! Mas, a rua não tem estatutos. O simples aumento nas passagens de ônibus em Porto Alegre serviu de estopim para incendiar o Brasil. O povo, nas ruas, clama por consertar qualquer coisa que entenda injusta, rejeitando Partidos, tanto faz situação ou oposição (que parece não haver), e que não são bem vindos. A exemplo das primaveras espalhadas pelo mundo, desde o “occupy wall street” passando pelo mundo árabe e pela Europa, a nossa primavera parece ter chegado no começo do Inverno. Ninguém, em sã consciência, quer o vandalismo, que seja reprimido com dureza. Mas, a manifestação pacífica...? Deixem o povo nas ruas! A classe política, se tiver ouvidos de ouvir, que faça seu trabalho decentemente. Vejam! Estão voltando as flores. 

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Lançamento A Empreitada

Foi um grande prazer receber amigos leitores e leitores amigos no lançamento de "A Empreitada". Aconteceu no BooKafé da 29ª Feira do Livro de Canoas, em 11 de junho. Obrigado, um grande abraço a todos!
Ah! Aproveitem a leitura! Quem sabe, a partir daí, não iniciamos todos a nossa empreitada?




















terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A Empreitada


                       Dia desses, durante um almoço de família, minha nora Raquel, perguntou-me qual seria a expressão latina que mais me cativava. Depois de uma breve consulta aos escaninhos da alma (e aos da memória, que o meu latim já se vai há muitos anos), lembrei-me de “Vincit qui se vincit”, algo como: só vence quem vence a si mesmo. O profeta do Islã, Muhammad, deu a esse brocardo da Filosofia romana uma visão religiosa, chamando-a de “Jihad”, mal traduzida pelos ocidentais, ao tempo das cruzadas, como a “guerra santa” que os muçulmanos empreenderiam contra os infiéis. Mas, Muhammad estabelece duas jihads, a “Jihad maior” que descreve como uma luta do indivíduo consigo mesmo, pelo domínio da alma imortal, pela sua melhoria como ente humano fiel a Deus; e a outra, a “Jihad menor”, que seria o esforço para levar o Islã ao mundo inteiro. Prefiro a visão desta jihad maior, que se enquadra mais no conceito latino, de uma luta sem quartel, que o homem deve empreender para vencer suas más tendências, conhecendo a si mesmo, reforçando-se em suas virtudes e combatendo em si os seus vícios morais, e isso mesmo que não tenha nenhum vínculo religioso, uma vez que, ainda que o homem não acredite em Deus, sente que melhorar sempre mais como indivíduo, acaba por “contaminar” a sociedade com a gentileza, a educação, a urbanidade, a civilidade, a misericórdia, a compaixão. Outras vezes, essa luta deve ser travada contra a apatia, contra o medo, contra a mediocridade, contra o inexorável destino que é a morte, venha ela como vier, sem receios e com altivez. Eis a grande Empreitada do homem sobre a terra, reconhecer em si o seu maior inimigo, viciado, pequeno, egoísta. Avançar sempre, a cada dia, sobre a ignorância, a superstição, o preconceito, a ambição que, teimosamente, habitam em nós. Começando em nós, transformando a sabedoria e o conhecimento em ação positiva, haveremos de mudar para melhor a sociedade e o mundo. Vincit qui se vincit, vencer a nós mesmos. Que empreitada!

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