segunda-feira, 21 de junho de 2010

Saramago já não está mais


José Saramago, morres, então?

Quem agora haverá de trazer lucidez à minha cegueira?

Tu me disseste um dia (ou teria sido numa noite de leituras?): “A morte é simplesmente a diferença entre o estar aqui e já não mais estar”. Neste ponto discordamos, amigo português, há muito mais no homem que o simples produto dos humores combinados a nervos, carnes, ossos e tendões. Sobra a nós (e em nós) a inteligência, perene e individual, à qual os dedos de ossinhos finos da “sra. Ceifadora” não consegue atingir. Ah, tu te ris, ó gajo? Acreditas que tenho anseios de eternidade? Saibas que não sou seguidor de nenhuma pueril agremiação de cunho religioso. Mas, queria bem ver tua cara agora, aí, deste outro lado, desperto e consciente. Estás morto, é verdade, mas eu falo contigo. Como pode ser? Ora, não te ris mais? Vem, te explico: tua inteligência está plasmada em tudo que escreveste neste mundo, e isso não morrerá jamais. Anda, usa da lucidez que me destes para entenderes que, agora sim, com tua morte, serás imortal e eterno.

Venceste a cegueira, enfim.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Adolescência, os pais e o “bullying”


Era muito comum, no meu tempo de guri, na escola, alguém “tirar sarro de alguém”, “pegar para courinho”, “pegar alguém de gozação”. A diferença é que agora é em inglês, o “bullying”, e a coisa tomou notoriedade. Resolvia-se, mais ou menos, como hoje: aos socos. Ou seja, é um tipo de violência que sempre existiu, parece uma necessidade de afirmação ou faz parte da formação do indivíduo para a vida em sociedade: “mostrar ao mundo que sou valente”. É lastimável, é claro! Ainda mais agora, que a valentia de “sair na mão” foi trocada pela arma de fogo. Triste, mas é assim que é. Dificilmente alguém escapa de uma gozação dolorosa dentro de uma escola. O gordo é “bolão”, “baleia”. O muito branco é a “barata branca”. O negro é o “crioulo”, “neguinho”. As meninas, além dos demais adjetivos acima, ainda podem ser a “piranha”. O menino mais tímido é a “bichinha”. Muita gente superou essas ofensas e seguiram suas vidas, prósperas e felizes. Outros resolveram com os punhos e superaram também. Outros, no entanto, nunca superaram, mas o certo é que todos ficaram marcados para sempre, e penso que tanto o agredido quanto o agressor. Mas, afinal, por que somos assim tão cruéis? Oh, sim, até as crianças são cruéis!

Tudo passa pela formação da individualidade, pelo autoconhecimento. Conhecer quem sou “eu” depende de observar o “outro” e estabelecer as diferenças. Não falo em respeitar às diferenças, isso já é um segundo momento, quando existe maturidade do ser, e maturidade não tem nada a ver com a idade; falo em perceber que somos diferentes, portanto, aparentemente, não somos iguais. Ora, somos tão diferentes que, ao final, acabamos iguais nas diferenças. Parece “enrolado”, mas não é. Uma criança, por exemplo, aos poucos aprende a diferenciar-se da mãe, percebendo que não é um pedaço ou extensão dela, mas é outro ser individual. Percebe-se melhor essa formação do “eu” na adolescência, a terrível fase das transformações. O jovem se põe num combate feroz contra os próprios impulsos: amar ou odiar? Morrer de vergonha e, às vezes, não ter pudor algum; copiar seu ídolo em tudo, enquanto busca sua própria identidade. A explosão hormonal que acarreta a perda do corpo infantil com a mudança para o adulto que ainda não é. Ser auto-suficiente e, ao mesmo tempo, ser confuso sobre as decisões a tomar. To be or not to be”, ser ou não ser. A casa é o refúgio seguro, mas há o conflito de gerações; a escola é a rua, a vida lá fora, onde se convive com os iguais, e os iguais são produto de consumo, os desiguais são objeto de escárnio. Fora da família, a escola é o primeiro ambiente social da criança. Ali, uns são tímidos, outros desinibidos a ponto de serem os “donos do mundo”. Os tímidos vão sofrer.

Que fazer com os agressores, então? Com os que não conhecem o limite para bem viver em sociedade? Punir? Sim, sempre! Qual punição? Não me atrevo a designar as necessidades da educação de filhos que não são meus. Os pais são os responsáveis? Sempre! Lembremo-nos de que escola não educa, dá instrução. Professora não é “tia”. Educação é responsabilidade paterna. Cabe à escola a fiscalização e a punição administrativa, incluindo aí, o encaminhamento à autoridade policial, se for o caso. Os pais que apontam desídia da escola em fiscalizar, podem estar certos, mas, em relação à correção dos filhos infratores, fogem da responsabilidade. Não é a escola, não é a polícia, não é a “tia” professora quem educa meus filhos, sou eu.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O que é ser elegante?

Um amigo cumprimentou-me dizendo que eu estava elegante feito um “lord” cubano. Bem, quem me conhece sabe que sempre uso chapéu, e aprecio mesmo um bom charuto da ilha de Fidel. Mas, será que isso faz de mim um sujeito elegante? Costumam serem chamadas de elegantes as pessoas que tratam bem da sua aparência: unhas limpas e cortadas, cabelos bem tratados (no caso dos homens, também uma barba bem feita), vestir-se com esmero, com roupas limpas e asseadas. Se essa pessoa tiver condições econômicas para roupas mais caras, com melhor corte, a elegância evidencia-se. Ora, existem até cursos e escolas onde se ensinam como vestir-se, o que vestir em qual ocasião, regras de etiqueta, etc. Mas, o fundamental, e cada vez mais ausente, é a elegância no comportamento. Pois, o comportamento elegante e gentil está além do aprendizado, da instrução, do saber usar o talher correto, ou qual a meia que combine com o sapato. É uma questão de educação e vai além do dizer “obrigado”, o que já seria uma grande coisa nos nossos dias. A verdadeira elegância manifesta-se sempre, em qualquer momento, não somente nas poses para as colunas sociais. O verdadeiro elegante nem ao menos precisa estar vestido com a roupa da moda ou com “isto” combinando com “aquilo”.

É elegante o que escuta mais do que fala; que nunca passa adiante uma fofoca maledicente; que, mesmo sendo hierarquicamente superior ou esteja investido de algum poder, nunca é arrogante ou prepotente. O verdadeiro elegante é sempre cordial, tem um aperto de mão firme, olho no olho com sinceridade; é sempre pontual em seus compromissos, cumpre o que promete e dentro do prazo estipulado; é aquele que é sempre sincero sem ser rude, tem gestos de carinho e gentileza, sem esperar retribuição. É solidário e gentil silenciosamente e sem afetação. Quando alcança vitória, alegra-se sem se vangloriar; quando perdoa, não tem segundas intenções, não impõe regras ao perdão; quando faz caridade, não faz alarde.

Ser elegante, enfim, é algo que se é, e não que se tem. Está muito além da etiqueta, é um comportamento onde os gestos são educados e naturais e nunca decorados ou ensaiados. O elegante não é falso, pois elegância está no caráter. E caráter não se dissimula. Ao menos, não sempre.

sábado, 27 de março de 2010

Pão e Circo



Escrevo agora sobre o leite derramado, depois do jogo com cartas marcadas. O tribunal do júri do casal Nardoni, antes mesmo de começar, fazia dos dois a carne queimada da Inquisição. São culpados? Talvez sim. Eu, pelo menos, acredito que sim. O próprio promotor, Francisco Cembranelli, se disse em dúvidas, mas disse isso após o julgamento, é claro! Não existem provas, mas sim evidências. Porém, o clamor do povo foi tanto que jamais os dois escapariam da condenação, sob pena da cidade de São Paulo, ver-se às voltas com uma revolta popular. Particularmente, não tenho o menor interesse no destino dos Nardoni, se ficarão presos por vinte, trinta, quarenta anos, se vão apodrecer na cadeia, a mim pouco se me dá. Não quero avaliar o crime ou o julgamento. O que me impressiona é a violência, a fúria, a ignorância da turba, a grande massa manobrada pela imprensa. A imprensa “marrom”, que se delicia com crimes de morte, por que, afinal, tem assunto para vender jornal ou para audiência na TV. São os hipócritas que expõem e exploram a miséria humana, o sofrimento das famílias enlutadas e a memória de uma infeliz criança, morta por quem deveria lhe dar amor, educação e carinho. O desrespeito continua por semanas, meses, anos a fio, e a criança é repetidamente morta para a platéia, entre um terremoto e outro, entre um escândalo político e outro. E cada um do povo, cansado de ver triunfar a injustiça, a prepotência e a impunidade, vê a si próprio sendo vingado na figura da criança morta ou nos avós sofridos. Ninguém quer justiça, o que querem é o linchamento em praça pública, é a execução sumária dos réus. Olho por olho, dente por dente. E já!

Não se iludam, nós não somos um povo ordeiro e pacífico, somos a mesma plebe que os Césares, em Roma, aprenderam a controlar dando-lhe comida e o divertimento do circo de gladiadores. Panen et Circencis. Pão e Circo. Nosso pão, hoje, são os “vales” isso e aquilo, as “bolsas” disso e daquilo; o nosso circo aí está: na novela de sempre, com o mesmo e batido enredo, na “casa mais vigiada do Brasil” e que não acrescenta nada de bom nas nossas vidas e no sensacionalismo barato (quanto mais sangue melhor) com que a imprensa sobrevive. Em breve, teremos eleições. Não temos infraestrura, não temos saúde pública, não temos educação, não temos segurança, mas a diversão está garantida.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Vida antes da morte


A filosofia sempre questionou a possibilidade de haver vida após a morte. As religiões sempre deram ênfase ao continuar da consciência após a morte do corpo físico. Há, ainda, aquelas que dizem que esse corpo, mesmo perecido, vai voltar a animar-se no Juízo Final. Assim mesmo a maioria das pessoas tem medo da morte. O que não deixa de ser cômico, senão trágico, afinal a única certeza que temos nesta vida é que vamos todos morrer. Mas, o que impressiona é que cresce o número de pessoas que têm medo da vida ou, ao menos, enfrentar as vicissitudes da vida. Uma gente que não se anima com nada, sem planos, sem objetivos, só com a cabeça cheia de sonhos, mas que não se agitam na construção da realidade. Há, ainda, os que não conseguem lidar com sua própria vida e acabam por suicidar-se. E, nesse gesto tresloucado, acreditem, não há coragem para enfrentar a morte ou covardia para enfrentar a vida, há apenas desesperança. Mas, a maioria vive apenas uma morte em vida. Uma gente que não busca ânimo em nada, é um viver sem contentamento, sem esperança, sem sentido. É gente que já se decepcionou muito, ou está frustrado com o que conquistou na vida. Ou que trabalhou a vida toda e agora não sabe o que fazer na aposentadoria. Casais que querem casamentos perfeitos, que criaram falsas expectativas com relação ao outro e, como casamentos perfeitos não existem, é fatal a frustração. É gente que espera perfeição demais das religiões e dos religiosos, mas como não existem nem homens nem instituições perfeitas, acabam caindo num materialismo pernicioso. A plenitude da vida, pois, está no inverso. Está em reconhecer suas próprias limitações e as dos outros. É buscar razão para continuar vivo, seja através da elaboração de objetivos para si, ou trabalhando para o próximo (e sem remuneração, isso sim dá sabor à vida). É nunca depositar confiança cega nos homens e nas suas religiões-instituições, ao contrário, busque em si um sentimento de religiosidade que o aproxime de Deus, isso é um sentimento inato, não se aprende em nenhuma cartilha e não necessita de práticas exteriores. Viver plenamente é não fugir da vida e das responsabilidades que ela nos cobra. É entender que o casamento é parceria, com lealdade e fidelidade, e nunca pode ser um jogo de interesses ou a futilidade da “carinha” bonita. É esquecer, um pouco ao menos, do possuir e pensar mais no construir. Fazer a paz consigo e com a humanidade, enfrentar a vida com seus altos e baixos, conhecer a si mesmo, é assim que se constrói uma boa vida antes da morte.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A Alegria na Música



Sempre gostei de música. Gosto de música desde que ela seja realmente música, quero dizer: com músicos e instrumentos musicais. Não gosto desse bate-estaca eletrônico, sem musicalidade, sem poesia; e, gosto menos ainda, dessa pornografia sonorizada das “cachorras” e das “eguinhas”. Como para todo mundo, há músicas que marcaram minha infância e adolescência. Você, por acaso, conhece “Summertime”, dos irmãos George e Ira Gershwin? Ah, pois essa me faz feliz. De repente, do nada, eu me pego cantando ou assoviando essa música. Escutei-a, na primeira vez, lá no começo dos 70 com a Janis Joplin, mas a gravação que me enternece é da Ella Fitzgerald com o trompete e a voz inconfundível do Louis Armstrong. E como não gostar de “Ronda”, do Paulo Vanzolini, na voz rouca da Márcia? Ou de “Detalhes” do Erasmo e do Roberto? Mas, a música que eu considero a mais bem feita, a minha favorita é “Every Time We Say Goodbye” do Cole Porter. Essa é bonita até na voz do Chico Buarque.

Essa compulsão por boa música me vem da infância. Minha mãe cantarolava o dia inteiro. Era Dalva de Oliveira, Vicente Celestino, Chico Viola. Até que cantava afinada a minha velha. Meu pai já gostava de Altemar Dutra, Nelson Gonçalves e Xitãozinho e Xororó. Eu somei isso tudo, acrescentei os meus, e o meu gosto, hoje, vai de Led Zeppelin a Tonico e Tinoco, passando por Mozart e Beethoven. Alguém pode dizer que isso não é “um” gosto, é uma miscelânea eclética. Pois é mesmo, a música é eclética. Os insensíveis vão dizer que música é só matemática. Certo! É mesmo. Mas, música exprime estados d’alma, por isso o ecletismo. A música te acompanha, mesmo que não percebas, entre a alegria e a dor. E veja, como na dor, ela pode te transportar para a alegria. Experimente a “Ode à Alegria” da 9ª Sinfonia de Beethoven, depois me diga se é verdade ou não. A música também não pode ser estereotipada, há muita gente de bombachas que gostam de “rock”, há roqueiros que adoram samba, há sambistas que gostam de ópera. Porque a música quando é boa é universal.

Ano passado, eu ia em direção à Feira do Livro, na Praça da Alfândega, quando um garoto na minha frente começou a assoviar “Jesus Alegria dos Homens”. Ora, fiquei maravilhado. Ele usava uma calça frouxa, mostrando as cuecas, e usava um boné virado para trás. Onde ele teria aprendido essa música? (Rá, rá, olha aí o preconceito, o estereótipo!) Ele poderia estar assoviando um “rap” ou um “rock”, mas era Johann Sebastian Bach quem o fazia feliz naquele momento. Que poder tem a música! Por que esse assunto hoje, afinal? Sei lá! Talvez porque eu tenha escutado “Summertime” logo cedo, e isso tenha me enchido de alegria.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A hora é agora.





Há uns dias atrás, veio-me um lampejo de consciência: nós estamos mesmo destruindo a casa em que moramos. Nós, que eu digo, somos os seres humanos, e estamos acabando com este planetinha azul com o qual giramos pelo espaço. Pois, esse “estalo interior” surgiu-me na virada do ano, com as tragédias de Angra dos Reis, no interior de São Paulo, em Minas e no interior do Rio Grande. Que chuvarada! Isso tudo de uma vez só, sem trégua. Minha gente, esse foi um alerta e tanto. É melhor repensarmos nosso comportamento em relação às coisas do meio ambiente, sob pena de pagarmos um preço alto muito em breve. Se bem que algumas pessoas já pagaram esse preço com a vida, nesses acontecimentos trágicos que citei acima.

Trinta, quarenta anos atrás, o tema ecologia era tratado como coisa de quem não tinha o que fazer, frescura de intelectual que não conhecia mato, coisa de maconheiro ou de efeminidados enrustidos (já vou logo avisando que nunca pensei assim). Não se dava, nem na política nem na sociedade, oportunidade para uma discussão séria sobre o meio ambiente. O negócio bom era desmatar e construir estradas. Quando os árabes criaram a crise do petróleo em 1973, aquilo foi um “Deus nos acuda!”, por que não se pensava em outra forma de energia que não viesse do “ouro negro”. As prefeituras permitiam (e ainda permitem) construções desordenadas em áreas de proteção ambiental ou de risco (vide Angra, Salvador e Belo Horizonte). Desenvolvimento a qualquer preço.

Sempre olhei com reservas esses “profetas” do apocalipse ambiental. Ainda não sei se estão certos sobre o aquecimento global ou se isso é mesmo cíclico, como querem outros. Mas, sei que, se avançarmos sobre a natureza, feito loucos com máquinas e homens, ela avançará sobre nós. E ela é, como se viu, muito mais poderosa. Deus perdoa sempre, a natureza nunca. Se os governantes, infelizmente um mal necessário, não se ocupam com políticas ambientais globais, o homem comum deve criar uma mentalidade de proteção à natureza que o cerca. E não adianta só sair por aí em passeatas, carregando cartazes. Quer sua cidade limpa? Cuide do seu quintal e da sua calçada. Não jogue lixo na rua, na praia ou pela janela do carro. Separe o lixo que pode ser reciclado. Antes de mudar o mundo, é preciso aprender a mudar de postura diante dele. Não há mais tempo para divagações. O perigo, como se viu, é real. A hora é agora, e o mundo é uma aldeia só.

É..., feliz ano novo!



terça-feira, 17 de novembro de 2009

Aceitando as diferenças.


Sexta-feira, 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, em memória de Zumbi, quem sabe o primeiro grande revolucionário americano. Pois, Zumbi e o rei Ganga-Zumba comandaram o grande Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, em Alagoas, com quase 200 Km de extensão, e várias pequenas cidades. Foi, sem dúvidas, a primeira experiência republicana das Américas. E, ao contrário do que se pensa, lá não havia somente um “bando de escravos fujões”, mas gente pobre de todos os matizes, uma população de 30 mil pessoas, eram negros, brancos e índios, agricultores e artesãos fugindo todos da opressão feudal e da pobreza das cidades portuguesas. Uma sociedade de iguais, apesar das diferenças. É, pois, uma data para se ir além desta celebração da etnia negra. É, sim, a oportunidade para rever conceitos e preconceitos que, no Brasil, teimamos em esconder.

Confesso que houve tempo em que pensei que deveríamos recusar as diferenças, a fim de construirmos uma sociedade igualitária. Reconheço, hoje, que são justamente as diferenças que compõem a beleza da raça humana. Estar em paz com as diferenças é aceitar que o mundo tem mesmo de ser multicolorido e multicultural. Nós é que devemos nos adaptar a todos os desiguais. Só o que não se deve aceitar é a falta de caráter e a não aceitação das diferenças, o que nos leva ao tratamento discriminatório a todos os que não aceitamos como “nossos iguais”. Não existe uma raça negra ou uma raça branca ou uma raça amarela, somos todos da raça humana. Cada um de nós, sobre a face da Terra, é tão diferente geneticamente um do outro, que até nisso somos iguais. Ainda assim, discriminamos as etnias, as mulheres, as crianças, os homossexuais, os velhos, os magros, os gordos.

Os verdadeiros valores não estão na cor da pele, na ideologia política, no sexo, na idade, na religião, na opção sexual ou no gosto de cada um por “jazz” ou samba. O caráter, sim, é o importante, a lealdade, a honestidade, o respeito consigo mesmo e com os outros, uma sólida conduta ética e moral. Esses os verdadeiros valores, infelizmente, hoje, cada vez mais fora de moda, principalmente na atividade política, donde deveria vir o exemplo. Se já somos diferentes na cor da pele, na cultura, nos gostos, não podemos aceitar tratamentos diferentes em respeito aos direitos fundamentais e igualdade de condições de acesso aos benefícios sociais. Oxalá, um dia tenhamos uma verdadeira República, talvez nos moldes da que foi sonhada por Zumbi dos Palmares, há trezentos anos. Pensem nisso.


terça-feira, 10 de novembro de 2009

Pelo fim do mau humor.


Pois bem, vamos reconhecer que todo mundo tem o direito de, algum dia, amanhecer azedo e sem vontade de ver a cara de ninguém. Acontece, à vezes. A vida moderna, o estresse, as dívidas, a política, o seu time de futebol, mas para tudo há limite. Vejam só: de manhã cedo, primeira hora de trabalho, o sujeito cumprimenta o companheiro: “Bom Dia!”, o outro dá um grunhido rouco; o primeiro pergunta: “Que mal humor é esse?”, resposta: “Você é dentista por acaso, para eu ter de mostrar os dentes”. Credo! A história é real, eu vi e ouvi. Pois, um carrancudo e mal humorado desses vai envelhecer mais cedo, além de dar mostras de ser um tremendo mal educado: a um “Bom dia” se deve responder com outro, sempre. Mesmo que sua mãe tenha morrido ontem, nunca perca a oportunidade de ser educado. O mundo ao nosso redor não tem culpa dos nossos dramas, passar para os outros nosso azedume é falta de maturidade.

Gente azeda é insensível aos outros e quer contaminar a todos com sua carranca. Já viram como é bom estar ao lado de uma pessoa alegre e educada? Gente assim é que te eleva o astral. Conheço pessoas que têm medo de mostrarem-se educadas e alegres por receio de serem tidas como fúteis. Ora, você pode ser sério com bom humor, além do que, cara feia não é indicativo de sobriedade. Na verdade, não há quem não se sinta bem ao lado de uma pessoa educada e de bom humor, desde que não haja exagero. Não é preciso andar por aí rindo à toa feito o “bobo da aldeia”. Use de gentileza sempre que puder, descubra o prazer de ser educado, de ser útil, de fazer pequenos favores sem esperar nada em troca. Descubra os “invisíveis”, aqueles por quem você passa e não nota a presença. Dê um presente a um amigo sem que seja o aniversário dele. Se alguém quiser desabafar, escute. Aliás, busque escutar sempre mais do que falar, é por isso que temos dois ouvidos e uma só boca.

O quê? Você não tem tempo para isso? Isso é conversa mole sua! Ninguém perde tempo na solidariedade. Por um instante, esqueça-se dos seus próprios dramas e seja solidário com o drama alheio. Descubra que todas as pessoas e todas as coisas têm sua importância. Sua vida vai melhorar? Quem pode saber? Isso só depende de você, mas acredite, você vai se sentir imensamente bem. Por isso, se alguém lhe desejar um bom dia, responda educadamente, de bom humor, com um sorriso na cara: “Bom dia para você também!”

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Água mole em pedra dura.



Como é dura, às vezes, a vida do cronista. Incompreendido, é tido por cansativo e repetitivo pelo leitor. Eu sei, amigos leitores (acredito que ainda os tenha), que escrevemos, repetimos, batemos na mesma tecla, vezes sem conta. Mas, é para que não morra em nós, os cronistas, a indignação diante das abominações que ferem a nossa dignidade (agora é “nós”, a sociedade). Essa é a maneira que encontramos de levar ao público os fatos que imploram apuração e soluções, em respeito aos homens de bem. É a teoria da “água mole em pedra dura”, é preciso insistir e insistir. As pessoas não mudam, é por isso que as coisas não mudam.

Vejam só: todos os anos, os escândalos na política se repetem. E quem são os políticos causadores dos escândalos? Sempre os mesmos. Raramente são uns novos. Então, porque continuamos a votar neles? De quem é a culpa, senão do eleitor, é claro! Pois é o eleitor quem não muda! Por isso batemos na mesma tecla. Para que o povo aprenda que não é vítima. Numa democracia (acreditamos que o Brasil ainda o seja), quem manda é o povo. Aprenda, pois, a mandar!

A educação, então, é sempre deficiente, em qualquer região, com escolas em estado lastimável, às vezes, são até containeres de lata; falta de transporte e merenda, alunos indisciplinados, professores mal remunerados e, no mais das vezes, desinteressados da educação e interessados em política partidária. É preciso repetir: só a educação salva o Brasil. Sem educação seremos sempre um país em desenvolvimento, esqueçam a entrada no primeiro mundo.

Vejam só o trânsito: no Brasil morre, por ano, mais gente do que morreram americanos no Vietnã. A frouxidão e a impunidade são as responsáveis pelo caos. Um bêbado pode se recusar a fazer o teste do bafômetro. Ora, é o interesse privado sobrepondo-se ao público, e isso é absurdo. O excesso de velocidade e a ultrapassagem proibida são infrações, quando deveriam ser crimes, porque matam, e muito. Como não continuar falando sobre isso?

A lei é igual para todos (dizem)! Mas, parece que uns são mais iguais que outros, e se beneficiam com a impunidade. Como não continuar falando da falta de ética na classe política? Pois se essa falta de moralidade pública se reflete no povo, “ora, se eles podem porque eu não?”. Vem daí a falta de respeito às instituições, aos velhos, aos professores, aos pais, às leis, ao trânsito, aos animais, às diferenças, enfim.

É, por isso, amigo leitor, que o cronista precisa continuar batendo assuntos velhos, mesmo que seja como escrever na areia, não importa o tempo que leve, pois uma ou duas cabeças podem mudar para melhor, e, quem sabe, não acabem contaminando outras com o vírus da ética e da moral.

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