segunda-feira, 27 de outubro de 2008

O vício do poder.


Maquiavel nos ensina em O Príncipe, que o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente. Meu pai dizia, na sua sabedoria bronca de torneiro mecânico, que para se conhecer, de verdade, uma pessoa, basta dar-lhe poder ou, então, uma boa pinga. Pois que, os dois vícios revelam a personalidade escondida. Existem os que recebem o poder, mas não o desejam, estes normalmente são os melhores gestores. Existem, no entanto, os viciados, desejosos e ansiosos pelo poder, e estes, no mais da vez, não o merecem. A política, por exemplo, é o melhor campo de atuação do desejoso de poder. Ser o dono da máquina pública, ter nas mãos a chave do cofre, conhecer os meandros das grandes negociatas; ter, enfim, poder sobre o dinheiro público, que é, ao mesmo tempo, de todos e não é de ninguém, mas que o viciado no poder pensa que é só seu. E quando percebem que estão perdendo o poder, ou se desesperam ou, na maioria das vezes, mudam de lado rapidamente para se conservarem atuantes. Os gananciosos por poder são melindrosos, porque o poder não aceita que lhe chamem a atenção para seus erros. São autoritários, sem autocrítica e sem auto-imposição de limites. Mas, não acreditem que falo só da política. Isso não é regra. Conhecemos todos, pessoas que trabalham na política com altruísmo e sempre visando o bem público. A ânsia pelo poder é um dos vícios da humanidade, uma das suas mazelas morais contra a qual o homem, que deseja realmente crescer como ente humano, precisa lutar. É o desejo de subjugar os que lhe caem na esfera de atuação, seja na política, no trabalho, na família, na relação conjugal, na vida de sociedade, enfim. O ganancioso desumaniza-se, dessocializa-se; ele deseja ardentemente ser o centro de todas as atenções, onde todos devam girar ao seu redor e depender de sua decisão. Usa-se o sexo para atingir o poder, usa-se o conhecimento restrito a poucos, a religião misteriosa e dogmática, a informação sonegada do público. Quem tem ânsia pelo poder não mede esforços, é capaz de qualquer coisa para atingir o seu objetivo e depois, conservá-lo. Vale qualquer coisa, passando pela compra de votos e até matar alguém. O viciado pelo poder dificilmente melhora sua conduta, porque não sabe que está errado ou doente, pois quem tem poder extremo cerca-se de bajuladores, que também desejam o poder, pessoas que nunca lhe apontarão os seus erros. E ai daquele que lhe disser que está errado, será considerado um traidor. O poder pode ser um vício ou uma arma na mão dos fracos e gananciosos; ou pode ser uma ferramenta, nas mãos de homens de bem, usada para alavancar o progresso da sociedade. O homem de bem, é modesto, não deseja o poder, e por isso mesmo é bem quisto. O ganancioso usa o poder como se ele fosse um ser à parte da sociedade, é prepotente, pedante, e, quase sempre, pelas costas, é odiado. E você, como usa o poder?

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Ação e Reação.




E então, como anda seu estado de espírito? Está tudo bem? Em paz com a vida e com os seus? Se está..., então ótimo! Mantenha o bom ânimo. Mas, se está agitado, nervoso, preocupado, depressivo, desesperançado, sentindo-se a criatura mais sofredora deste mundo, aquele a quem ninguém compreende..., vá com calma; a vida não é uma coisa tão ruim assim. Você pode estar criando um demônio mais feio do ele realmente é. Tudo depende da nossa postura mental diante do mundo. Dizem que para toda a regra existe exceção. Pode ser..., sei não. Mas, para as leis universais que regem as nossas vidas não há “jeitinho”. Pela lei de Ação e Reação, a vida será para nós aquilo que fizermos dela, seja de bom ou de ruim. Assim, quando tudo parece conspirar contra nós, talvez sejamos nós que conspiramos contra tudo. A vida é assim e você, meu amigo, minha amiga, não é exceção, não tente fugir da realidade. Não tente esconder-se feito avestruz com a cabeça dentro da terra. E fantasias e milagres não existem. A vida, enfim, é dura para quem é mole. Reconheço: é difícil manter o pensamento positivo, somos constantemente bombardeados com notícias ruins e sensacionalistas. O problema é que ficamos sempre mais impressionados com as desgraças, adoramos comentar sobre tudo o que é mau. Com isso, criamos os nossos demônios dentro de nós e ao nosso redor. Aos poucos, sentimo-nos derrotados e sem capacidade de lutar, ficamos absolutamente negativos com tudo e com todos. Como, então, mudar a polaridade dos nossos pensamentos? Isso sim é simples de fazer. Começando por não comportar-se como os conformados ou pessimistas, porque esses já estão derrotados. O soldado que vai para a batalha acreditando na sua derrota, já perdeu a guerra antes de entrar nela. Lembre-se como uma bela manhã de sol afasta todos os monstros que a noite de insônia nos trouxe. Procure olhar sempre o lado bom da vida, quem está perdido, mas não se desespera, acha a saída. Anime-se, portanto, e a cada dia procure fazer o seu melhor em tudo, a vida vai lhe responder também com o melhor. Dou-lhes um exemplo: um amigo meu (aliás, de muita gente, estou só sendo egoísta) foi candidato a vereador nessas passadas eleições. Jornalista, poeta, escritor, intelectual refinado, um homem extremamente simples. É claro que ele não foi eleito. Em um jantar, dias antes das eleições, ele nos disse que tem muita esperança no futuro, que ainda é novo, que tem muitos anos pela frente e poderá fazer alguma coisa de positivo pela sociedade em que vive. Maravilha. O meu bom amigo tem 81 anos. Isso é pensar positivo, isso é ser positivo, é estar sempre bem, sob qualquer ponto de vista. Pois, tentemos ser assim, vejamos o lado bom das coisas. A vida continuará sendo difícil? Sim! Continuaremos a lutar pela sobrevivência? Sim! Mas, estaremos melhor preparados quando as adversidades nos baterem à porta.
Pensem nisso.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Escolher ou decidir?



Caros amigos, vocês já viram como os comerciais da televisão transformam a vida numa coisa fácil, simples e descompromissada? Tudo começa com uma simples escolha – da coisa certa, é claro! E o certo é o que está sendo anunciado. E você só escolherá essa coisa, se tiver bom gosto, se for um cara de classe, se for inteligente, etc. Enfim, um cara meio paspalho, assim como eu, está ferrado. Qual o leite você vai escolher? Qual o par de tênis? Qual cerveja? Qual combustível vai colocar no seu carro com motor “mega total power full flex fuel”: álcool ou gasolina? Pois é, o ato de escolher banalizou-se e isso se transferiu para a vida e já fazemos confusão, principalmente os mais jovens, entre escolha e decisão. Como se bastasse apertar um botão no controle remoto que tudo se ajeitará. Mas, a vida é dura e cobra seu preço muito alto para quem só sabe escolher e não tem coragem para decidir.
Pois, escolher é ato de impulso, quase descompromissado, quase sempre é sobre o melhor, o mais fácil e no menor espaço de tempo. Crianças e adolescentes sabem e podem escolher. Coisas como: Qual canal assistir? Em qual cinema entrar? Que tipo de combustível usar? Qual a cor favorita para pintar a casa? Quero café puro ou com leite? Uso a calça preta ou a marrom? Decidir, no entanto, relaciona-se, sempre a situações mais graves e determinantes para a vida. É preciso o uso da lógica e da razão, muito pouco do coração; decide-se pelo que é certo e não pelo mais prazeroso. Ou seja, decide-se pelo melhor que, na maioria das vezes, não é o mais fácil. Enfim, é preciso maturidade para decidir. Infelizmente, a maioria dos adultos ainda não é madura e afasta-se logo do que é demorado e dolorido, mesmo que seja o certo a fazer. Casamento, profissão, educação da família, honestidade e lisura nas relações humanas, isto se decide não se escolhe. Hoje, separam-se os casais (amor não se separa) como se trocam os canais de TV por um controle remoto; o mesmo para as escolas, empregos, amigos (será possível trocar um amigo?). Por que lutar por um relacionamento? Divórcio é fácil. Para que pensar (já que pensar dói), decidir? Por que usar a razão (eu não sou maduro mesmo)? Muda-se, ou melhor, escolhe-se. Li um artigo que falava em dados do IBGE mostrando que nos aproximamos da casa de 50% de separações (classes A e B). Ou seja, parece que muitos estão escolhendo casar, em vez de se decidir pelo casamento. Cada vez escolhemos mais e decidimos menos. É a ditadura do controle remoto. Não é coincidência a preferência das novas gerações pela comida rápida, o tal “fast-food”. Minha geração não é perfeita, ao contrário, só estamos tentando melhorar o mundo agora quando chegamos à faixa entre os 50 e os 60. Mas, nós aprendemos a lidar com as conseqüências das nossas decisões. Ou, pelo menos, alguns de nós. Afinal, o que é certo e o que é errado?
Pensem nisso.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

O fim do espetáculo.


O show terminou. Fim do espetáculo. Quem viu político ou banqueiro algemado viu, quem não viu, não vê mais. O policial, de repente o nosso astro favorito, não mais pode apresentar-se no elenco da prisão espetáculo. Pois, ainda na esteira da Operação Satiagraha, desenvolvida pela Polícia Federal, o Supremo Tribunal Federal decidiu disciplinar o uso de algemas nas operações policiais. Tá certo! Talvez fosse preciso mesmo preciso estabelecer umas regras. Algema tem de ser um instrumento de contenção, não de punição; deve servir para proteger o policial e até o próprio preso. Mas (e aí foi o pecado), a tirar o sujeito da cama, algemá-lo de pijamas e expor isso tudo no Jornal Nacional é uma tremenda fogueira de vaidades. E, com relação à vaidade, ninguém consegue competir com as estrelas do STF. A Polícia Federal prende, tenho certeza que depois de muito tempo de investigações sérias, mas não condena ninguém. Porque condenar é lá com o Judiciário, que raramente condena um pilantra de colarinho branco ou um político malandro, que é o que realmente importa. Restava à opinião pública saciar a sede de vingança com a imagem dessa gente sendo presa algemada. E esse Daniel Dantas, hein? Que força tem esse banqueiro enrolador e enrolado até o pescoço! Foi só prender o sujeito que a legislação foi mudada..., e numa rapidez de ação não muito comum na Suprema Corte. E vem mais por aí, o Ministro Gilmar Mendes, Presidente do STF, já cogita proibir a divulgação da imagem de presos na televisão, diz ele: “A exposição de presos viola a idéia da presunção de inocência, viola a idéia da dignidade da pessoa humana”. Tudo bem, desde que isso seja para todos, do ladrão de galinhas ao banqueiro ladrão. Por falar nisso, já perceberam que da tal Operação Satiagraha não ficou nenhum no xilindró, Celso (de pijamas) Pitta, Daniel Dantas, Naji Nahas, estão todos soltos. A decisão do STF, a súmula vinculante (esse é o nome), diz que as algemas só devem ser usadas em caso de resistência ou perigo de fuga, a justificada excepcionalidade deverá comunicada, por escrito, pelo agente policial, sob pena de punição. Tomara o tiro não saia pela culatra, tomara as polícias não se sintam “algemadas” e o seu trabalho, nesses tempos de violência urbana, não seja ainda mais prejudicado. E, caro leitor, não se atreva a pensar que, por ser um cidadão decente, ordeiro, cumpridor de seus deveres, isso não lhe diga respeito; pois, quando se disciplinam, e se ajustam, as regras que contrariavam os interesses dos que detém o poder econômico, isso significa que a nossa sociedade é doente, ou imatura, o suficiente para aceitar um regime de castas superiores. As algemas, por enquanto, só estão liberadas nas brincadeirainhas eróticas de sado-masoquismo, ali eu duvido que essa turma reclame por ser algemada.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Quando...


Da amiga poeta Maria Zeli


Quando eu morrer e ressuscitar
Eu quero vida sem dor
Quando eu morrer e ressuscitar
Eu quero todo o dia sujar as mãos de terra
E lavá-las na água da chuva
Quando eu morrer e ressuscitar
Eu quero vida sem culpa
E beijo de afundar a face
Quando eu morrer e ressuscitar
Eu quero vida sem regras
Lareira para as noites de inverno
E só vou beber vinho tinto
Quando eu morrer e ressuscitar
Eu não quero passado nem futuro
Só hoje e céu azul
Quando eu morrer e ressuscitar
Eu quero vida sem partidas
Quando eu morrer e ressuscitar...

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Quem cala..., consente!


Lembro-me, nos tempos de Faculdade, do velho professor Dr. João Asmar ensinando o seu latinório: “Ille tacitus, consen.” Ou seja, em bom português: quem cala, consente! E eu, cá do meu jeito, acrescento: se não tens coragem para falar, cala-te para sempre; ou engula os sapos e aceite ser vítima do próprio silêncio. Porque é o silêncio do povo que incentiva o poder aos desmandos, à corrupção, à vileza e à tirania. De fato, cabe aqui uma questão: por que tantos de nós discordamos dos absurdos que presenciamos e nos calamos diante deles? Por que temos tanto medo de ofender quem detém o poder? Serão ecos dos tempos de ditadura? Será uma herança maldita da colônia que ainda somos? Certo é, caros amigos, que o nosso silêncio eterniza os desmandos e quem os pratica sente-se cada vez mais seguro.
Por que nós sentimos que estamos “incomodando” quando cobramos nossos direitos? Será complexo de inferioridade? Ou medo de perder os benefícios que o Estado paternalista nos dá? Pois, quem cala consente em todo tipo de abuso, desmando, violência, troca de favores e impunidade. Alguém aí acredita que o Celso Pitta e o Daniel Dantas vão permanecer presos? Pois, se existe uma bancada inteira de deputados federais se borrando de medo das escutas telefônicas da Polícia porque foram financiados pelo banqueiro corrupto. Essa é a gente que nós colocamos em Brasília! E se déssemos um basta no nosso silêncio de carneiros mansos? Podemos gritar: Chega! Não voto mais em vocês! Vocês não merecem que eu lhes dê tanto poder! Só voto em candidato que abrir mão do salário! Chega de propina e de corrupção! Quero meu dinheiro de volta! Quero trabalho decente, não quero bolsa-esmola! Quero estudar com qualidade, não quero entrar pelos fundos! Eu pago impostos, logo, vocês são meus empregados! Ponha-se no seu devido lugar! Assim, talvez, poderíamos chegar perto do que é cidadania. Não seríamos conduzidos mansamente para o abate ou passivamente para a tosquia.
O nosso silêncio é um cheque em branco para os mal intencionados. A nossa crítica ao poder é sempre construtiva porque somos os verdadeiros detentores do poder; e, no mínimo, exigimos a exposição da verdadeira face daqueles que exercem este poder em nosso nome, em todas as suas instâncias e em todas as instituições. Portanto, não se cale! Vamos nos expressar como pudermos: pelas ruas, pelas igrejas, pelas sociedades, pelo teatro, pela dança, pelo gesto, pela palavra, enfim! Caso contrário, vamos engolir os nossos sapos! Seremos sempre vítimas da nossa mansidão e não merecemos o direito de falar.
Pensem nisso!

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Nós não somos iguais, não!


Caros amigos, eu ainda consigo me admirar com a capacidade que os políticos têm de conviver com uma situação como essa que envolve a nossa CPI do DETRAN. Se fosse comigo – eu acho que jamais será comigo! -, eu já teria morrido de vergonha. Saberia que por onde passasse as pessoas me olhariam e cochichariam “olha ele aí”. Saberia que na casa de todos estariam escancarados, nos jornais e na televisão, os atos que pratiquei e que não são nada decentes. Eu morreria de vergonha diante da minha família, de meus filhos. Como é que eu encararia os meus amigos? Como é que eu encararia a moça do caixa na padaria? E os meus vizinhos? Como seria uma reunião na Sociedade que freqüento? Como seria o cafezinho com os camaradas escritores? Pensei um pouco a respeito e cheguei a seguinte conclusão: uma pessoa só consegue suportar uma situação como essa de duas maneiras: se ela for um tremendo cara-de-pau ou se conviver entre pessoas que são iguais a ela. Um ladrão não tem vergonha de outros ladrões. Um vigarista não se envergonha diante de outros vigaristas. E me preocupei mesmo foi quando pensei que talvez essa turma ache que eu sou igual a eles; e que, portanto, poderiam conviver comigo como se nada tivesse acontecido.
E se eu estiver certo, então esse bando - e outros políticos da mesma cepa - me deixam menos indignado pelos desmandos que eles cometeram que pela perspectiva de que eles acreditem que somos iguais. Definitivamente, nós não somos iguais, não! Pois, essa escória tem de ser varrida definitivamente do cenário político brasileiro. Os homens e mulheres de bem deste país precisam unir-se em torno de uma bandeira de civilidade e justiça (não pensem que falo de algum partido político, não confio em nenhum deles), sob pena de serem tomados por iguais a essa corja. Os homens de bem precisam aprender a governar o governo, como diria o amigo Canabarro. Que tal uma nova campanha: “Nós não somos iguais, não!”. Mostraria o bom cidadão, decente, patriótico e correto. Um brasileiro diferente, que sirva de modelo a todos, principalmente às crianças. Que possam orgulhar-se de dizer que são honestas; que não usam pirataria por que isso incentiva o crime; que não compram auto-peças roubadas por que alguém pode ter morrido por causa delas; que não se escondem atrás da máscara de usuário de drogas por que é isso que faz o tráfico; que não usam artimanhas de suborno e de corrupção; que respeitam o tráfego e não usam o acostamento como pista; que não furam o sinal vermelho e não param em fila dupla; que não furam fila de banco ou qualquer fila, etc. Gente assim existe, são muitos, mas são tão silenciosos. Pois, precisam estar orgulhosos de ser como são e gritar a plenos pulmões: “Nós não somos iguais, não!”. Que beleza de campanha seria!
Pensem nisso!

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Terra doente.




Para quem não sabe a Terra está doente! Salve-se quem puder - ou melhor, se pudermos, salvemo-nos unidos. Foi acionado o botão vermelho e tocada a sirene de aviso: temos menos de cinqüenta anos para reduzir pela metade a emissão de gás carbônico céu acima. Se isso não acontecer, nós, Homo(nada)sapiens (sábios ou não) e toda a biodiversidade vamos para o beleléu respirando só fumaça.
Acomodados com as facilidades trazidas pela tecnologia, esquecemos quase sempre, que o planeta está doente, está febril. Os dinossauros foram alvos de extinção há milhões de anos; mas, agora, a bola da vez é uma espécie chamada: humana. É comum vermos na televisão, propagandas melodramáticas e apelativas de ongs que nos convidam a repensarmos nossa relação com a mãe Terra. Essas chamadas martelam e ecoam nas nossas cabeças, e fazem-nos refletir (às vezes não) sobre o nosso futuro; mas, infelizmente, desaparece feito mágica quando o próximo bloco da novela ou do enlatado de “roliúde” recomeçam, ou qualquer outra coisa que julguemos mais importante. Ou seja, enquanto o problema da poluição não nos tocar a saúde ou ao bolso serão só chamadas de alerta para os outros.
As soluções? Deixar de ver novela e filmes? Ora, não cheguemos a tanto! Se bem que ninguém perderia grande coisa. Mas, as soluções são várias: trocar o carro pelo transporte coletivo ou pela bicicleta, já é uma grande coisa, ao menos para o caos do trânsito; não jogar lixo na rua, além de ecologicamente correto é também sinal de educação; fazer coleta seletiva; limpar a própria calçada sem esperar que a prefeitura o faça; não queimar; não desmatar; plantar árvores; tratar o esgoto da cidade; consumir menos; optar por produtos biodegradáveis e com menos embalagens; levar a própria sacola de volta ao supermercado... São todas soluções primárias, pequenas e estão ao alcance de todos. O problema é que quando estas soluções ameaçam o nosso conforto individual, surgem então as célebres frases: “isso é problema do governo”, “que se dane a sustentabilidade”, “quando o mundo acabar, não estarei mais aqui”, “sozinho não posso fazer nada”; e a nossa displicência humana põe em cena a nossa própria condenação.
Li recentemente que São Paulo tem expectativa de vida menor em relação a outras regiões do Brasil em 1,5 anos devido à poluição; nós, aqui na terrinha, em breve chegaremos lá. Um ser humano produz, em média, 3,5 quilos de lixo por dia, o mundo aquece cada ano mais e o caos se estampa pouco a pouco (ou talvez até depressa demais). Como será o nosso fim? Quanto tempo demorará para chegarmos ao fim? Quando vamos realmente nos conscientizar do tamanho do problema? Não é utopia achar que se esta atitude começar de você, de mim, ou do seu vizinho a Terra estará menos doente. Pois, levante-se, comece!
Pensem nisso!

quinta-feira, 12 de junho de 2008

"SOLILÓQUIO e outras histórias curtas"




Aos caros amigos comunico o lançamento do meu mais recente livro: "SOLILÓQUIO e outras histórias curtas". A sessão de lançamento e autógrafos será na Fundação Cultural de Canoas (antiga Estação do Trem) , na noite de sexta-feira, 13 de junho, às 20h.


Trata-se de um livro de contos (que eu prefiro chamar de histórias curtas, conto mesmo é lá com o Machado de Assis) com 120 páginas, precinho de só R$ 10,00, em edição do autor, com apresentação do jornalista, poeta e escritor Canabarro Tróis Fº.






"... Quanto tempo fiquei inconsciente não sei. Escutei vozes ao meu redor, “... as crianças novamente, é a loucura...”, pensei. Não! Essas eram vozes adultas. Homens. O que falavam? Não conseguia entender, era uma língua do deserto. Difícil abrir os olhos. Alguém levantou-me a cabeça gentilmente e despejou-me na boca um pouco de água. Água! Água! Oh, Deus! Que benção é a água! Sem gosto, sem cor, sem odor, mas, se alguém me perguntar sobre o que é água, não existe resposta mais piegas e mais verdadeira: é vida! Abri imediatamente os olhos, só pude ver o contorno de um turbante profundamente azul. Na semi-inconsciência, lembrei-me dos trabalhadores berberes e de seu grande temor: Tuareg! O homem deu-me mais água. Agarrei-lhe a mão com avidez, ele desvencilhou-se e, falando francês, me fez entender que deveria ter calma e beber sem sofreguidão. O esforço pela água me fez desmaiar novamente. Deslizei, agora, mansamente para o inconsciente, amparado e sem sede. Anoitecia de novo, eu iria viver...".

Fragmento do conto Tuareg.



Haverá, ainda, uma sessão de autógrafos na Feira do Livro de Canoas, na barraca dos escritores da FUNDACAN, no dia 02 de julho, quarta-feira, às 17h., no calçadão do centro de Canoas.



Espero por todos.



Gerson L. Colombo

terça-feira, 29 de abril de 2008

Sonho de infância.


Julinho tem oito anos, mas aparenta ter cinco. Ele é amarelado, raquítico, de crescimento ruim para a idade; ainda assim, no meio do rosto esquálido, tem um par de olhos vivos, espertos, como os olhos de um rato, ágil nas manhas da sobrevivência. Brinca no meio da rua, quase sempre está sozinho; pés descalços, roupa imunda, cara suja, olhos remelentos, nariz sempre fungando; dá uma corridinha e puxa as calças largas para a cintura. É uma criança triste e solitária.
Mora no meio do beco sórdido, num barraco de madeira de um cômodo só. Mora com a mãe e outros três irmãos: uma menininha de cinco anos, outro de três e outro que ainda chupa o seio mirrado. Dormem todos na mesma cama desde que o companheiro atual da mãe foi levado pela PM. Antes disso, só o homem dormia na cama com a mulher; eles, as crianças, dormiam no chão, sobre uns trapos improvisados que eram seus colchões. Dormir no chão era frio, duro e ele tinha medo das baratas. Não gostava daquele homem. Ele batia na mãe, vivia bêbado; e quando a mãe não estava, botava-o para fora e ficava só com a irmã menor trancado em casa. Julinho colava o ouvido na parede do barraco e escutava o homem gemendo e fungando, até a irmãzinha começar a chorar. Além de tudo, aquele homem roubava seu lugar na cama quente da mãe.
Julinho não estuda, não faz nada. Sente uma fome constante e queria dormir num colchão só seu. A mãe o põe para fora de manhã cedo e manda que só volte à tardinha; e que tenha comido pela rua, porque em casa não há o que sustente a todos. Ele nunca se aventura muito longe de seu beco, perambula pelas redondezas. Sabe que alguém vai lhe dar o que comer, não sabe quem, não sabe onde; mas, como um rato, instintivamente, sabe que vai comer. Quase sempre está sozinho, mas ele não se importa; pelo menos, não terá de dividir com ninguém a comida que encontrar. Corre pela rua falando alto, alheio as pessoas e ao mundo a seu redor; corre montado num galho seco que é seu cavalo, de espada na mão, assim como o mocinho mascarado que viu num cartaz pregado na porta de uma loja de filmes. As outras crianças que encontra não lhe interessam, não faz caso delas. Nenhuma delas sequer olha para ele, nenhuma quer brincar com ele.
Volta para casa e já é quase noite. No meio do beco, em frente ao barraco, está parada uma Kombi branca com alguma coisa escrita na porta que ele não sabe ler. Dentro do barraco há um PM e umas outras pessoas. A mãe está chorando sentada a um canto. Ele acha graça na cara de pateta da mãe. Uma das moças vem falar com ele, diz que é de um tal Conselho Tutelar e que veio buscar a ele e aos irmãos para morarem numa outra casa, mas que a mãe não pode ir junto, que eles ficarão todos bem, que irão tomar banho e comer todos os dias. Julinho olha para a mãe apatetada e para o barraco imundo, volta-se e pergunta à moça se vai poder também dormir numa cama só sua. “Vai tomar banho, trocar de roupa, brincar, jantar e dormir numa cama bem limpinha”.
Julinho vai feliz dentro da Kombi, já não pensa mais na mãe que ficara chorando sozinha no barraco sem luz. Está aliviado, sorri satisfeito, até que enfim, vai poder dormir numa cama com colchão. Um colchão só seu,... só seu.

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...