segunda-feira, 29 de julho de 2013

Vergonha

                               
(Mais uma palhinha de "A Empreitada")

                                Já não chove àquela hora. Pela janela aberta do último ônibus da noite, chega, às narinas de Osvaldo, o cheiro da terra molhada pela chuva da tarde. Chuva mansa, chuva boa, chuva de lavar telhado; chuva que, durante a tarde, caindo sobre as folhas de zinco da fábrica, ensurdeceu mais que o matraquear das máquinas. A cabeça pesa-lhe agora, mas não é sono. Sente peso no estômago e náusea, mas não lhe vem o gosto amargo da comida azeda da marmita requentada no seu almoço de operário. Os braços pesam como chumbo, mas não é pelo cansaço da hora extra. Aquela última hora extra, cumprida no silêncio aterrador da velha fábrica, já vazia de mãos e almas. Mas, suas mãos, naquela última hora, produziram a última peça e, só então, deixou esvaziar a alma. Pesam-lhe a cabeça e os braços com um peso de uma angústia, um medo, uma insegurança, uma dor, uma vergonha. Em casa, os dois filhos pequenos dormem aconchegados à mãe que espera. Não suportaram o sono na espera pelo pai. A casa pobre, tijolos sem reboco, um corpo com veias à mostra, infindável construção. Um lar feito aos poucos, com o pouco das sobras anuais. Hoje, Osvaldo leva dinheiro para casa. Dentro da bolsa de operário, ao lado da marmita vazia, descansa o envelope com o último pagamento. O ônibus, praticamente vazio, já chacoalha pelas ruas esburacadas de seu bairro, gente pobre e excluída das benesses da administração pública. Ao cheiro da terra molhada se junta o gosto de sal de uma lágrima. Lágrima furtiva, que nunca vem fácil aos olhos de quem tem vergonha. Osvaldo engole o gosto de sal quando se aproxima da sua parada mal iluminada; parada que projeta um trapézio de sombra sobre os buracos alagados da sua rua pobre. Como explicar aos filhos e à mulher? Amanhã ele já não trabalha mais. Dentro da bolsa de operário, ao lado da marmita vazia, descansa o envelope com o último pagamento. Envelope com um pouco de dinheiro a mais que o costumeiro; o dinheiro dos acertos finais do aviso prévio e o começo da angústia, do medo, da insegurança, da dor e da vergonha do desemprego.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Clipping - Jornal ABC - 14/07/2013

O recorte abaixo é de publicação do Jornal ABC do Rio Grande do Sul, de domingo, 14/07/2013, na coluna Sala de Leitura, de Jane Regina Mathias.


A Empreitada - (Ed. do autor, 123 p., 25 reais) Gerson Colombo. O livro reúne doze contos cuja linha mestra é "a de uma luta sem quartel, que o homem deve empreender para vencer suas más tendências, conhecendo a si mesmo, reforçando-se em suas  virtudes e combatendo em si os próprios vícios morais", conforme ressalta o autor na apresentação da obra. Os contos falam sobre luz e treva, a violência de supostos humanos sobre seres indefesos, a fraternidade em xeque, a velhice, os absurdos da convivência, o trabalho mal remunerado, a infância marginalizada, a sabedoria da natureza, o desgoverno oficial. Vergonha é um dos contos mais curtos, mas nem por isso deixa de ser um dos mais profundos. São palavras escassas, bem escolhidas, para relatar uma realidade cruel: a dor infinita de um pai de família que perde o emprego. Em Cenas Curtas Colombo fala sobre os absurdos encontros e diálogos, entre pessoas que, lamentavelmente, são bem reais. São situações estranhas a que todos se sujeitam num mundo como o atual, no qual ninguém parece querer ouvir ou entender o que o outro diz.


sexta-feira, 21 de junho de 2013

Chegou a Primavera, estão voltando as flores.





       Acabou-se a letargia do sono em “berço esplêndido”. O Gigante acordou é o que dizem as ruas. E ao que parece para uma longa vigília em favor do bem comum. Quem tiver ouvidos de ouvir que ouça. A minha geração tremia, de raiva e não de medo, nos tempos da repressão, do abuso de poder, da tortura, do “sabe com quem está falando?”, da inflação mascarada, do uso da Previdência para construir pontes e estradas, da corrupção abafada pela censura, das eleições indiretas. As ruas, então, se encheram como agora. “Diretas já!”. Voltou o poder do povo e para o povo. Mas, o povo foi traído novamente. De volta às ruas, então! Agora de caras pintadas: “Fora Collor!”, e o presidente caiu. E os exilados, presos e torturados chegaram ao poder. “Agora a coisa vai! São políticos de boa cepa!”. Qual o quê... Agravaram-se a corrupção, a impunidade, a violência urbana, uma exorbitância de impostos sem o retorno devido, a Educação em petição de miséria, a troca de apoio no Congresso por dinheiro, condenados julgados gozando de liberdade, o caos na saúde pública, a delinquência juvenil impune e sem controle. Fica o gosto amargo de saber que os nossos eleitos não nos representam. E as obras para a Copa? A Grêmio Arena, particular, sem dinheiro público, erguida do zero, ficou em quatrocentos milhões; a “reforma” do Maracanã, obra pública, custou um bilhão de reais. A senhora “presidente”, em Roma, hospedou-se em hotel de luxo, com sua comitiva, ao custo de dezenas de milhares de reais, desprezando nossa Embaixada e a inteligência do povo. Temos mais? Ah, tem... Tem o mensalão, com a “eminência parda” do Lula, inexplicavelmente fora do processo, tem o Renan, tem o Feliciano com a “cura gay” (Meu Deus!), tem a Hidrelétrica de Belo Monte, temos os foros “privilegiados”. Temos desigualdade, enfim! Mas, a rua não tem estatutos. O simples aumento nas passagens de ônibus em Porto Alegre serviu de estopim para incendiar o Brasil. O povo, nas ruas, clama por consertar qualquer coisa que entenda injusta, rejeitando Partidos, tanto faz situação ou oposição (que parece não haver), e que não são bem vindos. A exemplo das primaveras espalhadas pelo mundo, desde o “occupy wall street” passando pelo mundo árabe e pela Europa, a nossa primavera parece ter chegado no começo do Inverno. Ninguém, em sã consciência, quer o vandalismo, que seja reprimido com dureza. Mas, a manifestação pacífica...? Deixem o povo nas ruas! A classe política, se tiver ouvidos de ouvir, que faça seu trabalho decentemente. Vejam! Estão voltando as flores. 

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Lançamento A Empreitada

Foi um grande prazer receber amigos leitores e leitores amigos no lançamento de "A Empreitada". Aconteceu no BooKafé da 29ª Feira do Livro de Canoas, em 11 de junho. Obrigado, um grande abraço a todos!
Ah! Aproveitem a leitura! Quem sabe, a partir daí, não iniciamos todos a nossa empreitada?




















terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A Empreitada


                       Dia desses, durante um almoço de família, minha nora Raquel, perguntou-me qual seria a expressão latina que mais me cativava. Depois de uma breve consulta aos escaninhos da alma (e aos da memória, que o meu latim já se vai há muitos anos), lembrei-me de “Vincit qui se vincit”, algo como: só vence quem vence a si mesmo. O profeta do Islã, Muhammad, deu a esse brocardo da Filosofia romana uma visão religiosa, chamando-a de “Jihad”, mal traduzida pelos ocidentais, ao tempo das cruzadas, como a “guerra santa” que os muçulmanos empreenderiam contra os infiéis. Mas, Muhammad estabelece duas jihads, a “Jihad maior” que descreve como uma luta do indivíduo consigo mesmo, pelo domínio da alma imortal, pela sua melhoria como ente humano fiel a Deus; e a outra, a “Jihad menor”, que seria o esforço para levar o Islã ao mundo inteiro. Prefiro a visão desta jihad maior, que se enquadra mais no conceito latino, de uma luta sem quartel, que o homem deve empreender para vencer suas más tendências, conhecendo a si mesmo, reforçando-se em suas virtudes e combatendo em si os seus vícios morais, e isso mesmo que não tenha nenhum vínculo religioso, uma vez que, ainda que o homem não acredite em Deus, sente que melhorar sempre mais como indivíduo, acaba por “contaminar” a sociedade com a gentileza, a educação, a urbanidade, a civilidade, a misericórdia, a compaixão. Outras vezes, essa luta deve ser travada contra a apatia, contra o medo, contra a mediocridade, contra o inexorável destino que é a morte, venha ela como vier, sem receios e com altivez. Eis a grande Empreitada do homem sobre a terra, reconhecer em si o seu maior inimigo, viciado, pequeno, egoísta. Avançar sempre, a cada dia, sobre a ignorância, a superstição, o preconceito, a ambição que, teimosamente, habitam em nós. Começando em nós, transformando a sabedoria e o conhecimento em ação positiva, haveremos de mudar para melhor a sociedade e o mundo. Vincit qui se vincit, vencer a nós mesmos. Que empreitada!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Então, eu conto!


Sonho de infância.


            Julinho é um menino mirrado, tem oito anos, mas isso ninguém diz por que ele aparenta só ter uns cinco. Ele é assim mesmo, amarelado, raquítico, desnutrido, de crescimento ruim para a idade; o que se percebe, no meio do rosto esquálido, é este par de olhos vivos, matreiros, como os olhinhos de um rato. Sua inteligência é curta, chega quase à idiotia, mas é esperto, isso sim, como qualquer bicho, já é ágil nas manhas da sobrevivência. Brinca no meio da rua, quase sempre está sozinho; pés descalços, roupa imunda, cara suja, olhos remelentos, nariz sempre fungando; dá uma corridinha e puxa as calças largas para a cintura. É invisível para a maioria dos que passam, por isso é uma criança triste e solitária.
            Mora no meio do beco sórdido, sempre sujo, cheio de lixo, num barraco de madeira de um cômodo só. Cozinha, sala e quarto misturados em promíscua confusão de mobília e trapos que se espalham pelo chão ou pendurados em pregos pelas paredes. O banheiro é uma casinha de madeira nos fundos do barraco, onde as aranhas e as baratas moram. Ali vive com a mãe e outros três irmãos: uma menininha de cinco anos, outro de três e outro que ainda chupa o seio minguado. Do pai não sabe nada, nem ao menos quem seja. Dormem todos na mesma cama desde que o atual companheiro da mãe foi levado pela PM; isso foi naquela noite de gritaria e confusão, a polícia batia, o homem gemia, a mãe gritava; levaram o homem no carro com as luzes girantes, a mãe chorou baixinho olhando a porta do barraco que ficou escancarada, depois, silêncio de novo. Antes disso acontecer, só o homem dormia na cama com a mulher; elas, as crianças, dormiam no chão, sobre uns panos velhos improvisados que eram seus colchões. Dormir no chão era frio, era duro, doíam-lhe as costas, e ele tinha medo das baratas. Não gostava daquele homem. Ele batia na mãe, vivia bêbado; e quando a mãe não estava, o homem botava-o para fora e ficava só com a irmã menor trancado em casa. Julinho colava o ouvido na parede do barraco e escutava o homem gemendo e fungando, até a irmãzinha começar a chorar. Além de tudo, o pior, aquele homem roubava seu lugar quente na cama da mãe.
            Julinho não estuda, não faz nada, apenas respira e anda. Sente uma fome constante e seu sonho de infância era dormir num colchão só seu. A mãe manda-o para rua de manhã cedo e diz que só volte à tardinha; e que tenha comido pela rua, porque em casa não há o que sustente a todos. Ele nunca se aventura muito longe de seu beco, perambula pelas redondezas fungando e puxando as calças. Sabe que alguém vai lhe dar o que comer, não sabe quem, não sabe onde; mas, como um rato, instintivamente, sabe que vai comer. O lixo pode conter maravilhas gustativas para quem nada tem. Anda por ali sozinho, ninguém se importa com ele, e ele também não faz importância da solidão; pelo menos, não terá de dividir com ninguém a comida que encontrar. Corre solto, livre pela rua, falando alto, alheio as pessoas e ao mundo a seu redor; corre montado num galho seco que é seu cavalo negro, de espada na mão, assim como o mocinho mascarado que viu num cartaz pregado na porta daquilo que ele chama: “uma loja de filmes”. As outras crianças que encontra não lhe interessam, não faz caso delas. Nenhuma delas sequer olha para ele, nenhuma jamais vai querer brincar com ele.
            Volta para casa e já é quase noite. No meio do beco, em frente ao barraco, está parada uma Kombi branca com alguma coisa escrita na porta que ele mesmo não sabe ler. Dentro do barraco há um soldado PM e outras pessoas. A mãe está chorando, sentada a um canto, olhos vidrados, catatônica, deserdada da sorte, desencantada com a sua miséria. Julinho, sem rir, acha graça na cara apatetada da mãe. Uma das moças vem falar com ele, diz que é de um tal “Conselho Tutelar” e que veio buscar a ele e aos irmãos para morarem numa outra casa, mas que a mãe não pode ir junto, que eles ficarão todos bem, que irão tomar banho e comer todos os dias. Julinho olha para a mãe e para o barraco imundo, volta-se e pergunta à moça se vai poder também dormir num colchão só seu. “Vai tomar banho, trocar de roupa, brincar, jantar e dormir numa cama bem limpinha”.
            Julinho agora vai feliz dentro da Kombi, já não pensa mais na mãe que ficara chorando sozinha no barraco sem luz. Está aliviado, sorri satisfeito, até que enfim, vai poder dormir numa cama com colchão. Longe das baratas. Um colchão só seu,... Só seu!



*


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Esqueci meu Passaporte



              Chegamos de viagem. Voltamos para casa, a Zildinha e eu, depois de uma curta temporada em João Pessoa. Trazemos, ainda, nas retinas, aquela beleza toda, aquela cor de esmeralda que é do morno mar da Paraíba. Coqueiros, coqueiros, coqueiros altíssimos, ao longo das praias, cheios de cocos, vejam só. A Ponta do Seixas, o ponto mais próximo da África de todas as Américas. Eles dizem que se você tomar um gole da cachaça local e firmar bem os olhos começa a ver as girafas e elefantes do outro lado, se não conseguiu ver, é por que bebeu pouco. O pôr do sol no Jacaré, ao som do Bolero de Ravel, é inesquecível. A feirinha de artesanato no Tambau é parada obrigatória. Ruas limpas, trânsito ordeiro, árvores, muitas árvores. Mas, o melhor de João Pessoa, apesar da beleza desbundeante, são as pessoas, é a gente de lá que faz o melhor de lá. Educados, gentis, interessados, hospitaleiros, e muito alegres. Uma alegria simples e contagiante. Um povo sem afetação. Nós, aqui do sul, estamos meio desacostumados da gentileza. Lá, recebíamos “bom dia!” de qualquer um que nos cruzasse o caminho. Uma coisa, por aqui, cada vez mais rara. Bem, mas como tudo que é bom, dura pouco, tivemos que voltar para nossa realidade.
                 Como num filme ruim, corta e muda de cena. Chegamos ao Aeroporto do Galeão para conexão para Porto Alegre. A gentileza de João Pessoa ficou em João Pessoa. A menina da GOL, na boca de saída daquele tubo, só disse: “Conexão para Porto Alegre: 2º andar, ala C.” E deu! Nenhum sorriso, nada de Boa tarde, Por favor me acompanhem, nem pensar. Fomos largados no saguão externo do Galeão, abarrotado de gente, e nós em conexão, sem saber onde é que tínhamos de ir. Bem, pergunta daqui e dali, sobe e desce escada, e chegamos a tal ala C. Pois, é o Embarque Internacional. E nós com bagagem de mão, vindos da Paraíba, só tentando voltar para o Rio Grande. Nova inspeção da ANAC. A Zildinha já ficou. Claro, na bagagem dela estavam perfume, desodorante, cremes de mão, de rosto, essas coisas todas e mais minhas seringas para a insulina. “Isso não pode passar.”, “Mas, como? Estamos em trânsito para Porto Alegre.”, “Não posso fazer nada! Regras da ANAC. Aqui é ala internacional.”, “Nós não temos nada com isso, a GOL nos deixou sozinhos...”, “Não posso fazer nada..., ou despacha de novo ou fica tudo.”, “Não tenho mais bagagem para despachar, fizemos o embarque em João Pessoa. Estamos num voo doméstico.”, “Não, não está! Esta é a ala internacional...”, enfim, perdemos a disputa,  deixamos o que tinha de ser deixado. Aliviaram a minha insulina.    

                    E toca em frente, olha a hora do embarque. Então, damos de cara com um brete que fazia voltas no salão. Aquilo lotado de gente, umas trezentas pessoas. Era a imigração. Cacete! Eu só quero ir para o Rio Grande. E o alto-falante berra: “Passaportes à mão! Todos estão sujeitos a nova inspeção, de acordo com a Lei Nº sei lá o quê.” Como assim passaportes? Tá certo que o Rio Grande só perde para o mundo em tamanho. Mas, que eu saiba, um cidadão rio-grandense não precisa de passaporte para voltar para o seu pago. Masaaahhh! Era o que faltava. E eu ali, suando feito porco, carregando bagagem de mão, mais brabo que cavalo xucro. Pois, atravessamos reto o tal do brete esse. Chamei um policial federal que ajeitava aquela fila, expliquei nossa situação, ele deu um xingão na ANAC e na GOL, e nos mandou passar apara o embarque. Depois de tudo, o voo ainda atrasou uns 40 minutos, nós escapamos do passaporte, mas a tripulação do avião não. Tiveram que enfrentar aquele brete. Então, agora quem é que vai dizer que não se precisa de passaporte para entrar no Rio Grande?

quarta-feira, 18 de julho de 2012

A Praga

                Nunca gostei de eufemismos. Sempre os tive na conta de “enganação”. Soa como coisa falsa, dita pelas costas, jeitosa demais. Eu estava no ginásio (só a Velha Guarda sabe o que é), não sei mais qual era o tema da aula, mas lembro que no meio da conversa, eu larguei o termo “leproso”, a professora corrigiu de pronto: “Não se fala leproso, é hanseniano”. Ah, me perdeu para sempre, e daí em diante desgostei da coisa. Passei também a desconfiar, há alguns anos, dessa baboseira que é o “politicamente correto”. Então, vem agora o Luiz Felipe Pondé com o seu livro “Guia Politicamente Incorreto da Filosofia” (que logicamente recomendo a leitura), fazer chover no meu jardim, onde planto as minhas florezinhas de ironia. Ele faz uma crítica profunda, porém, irônica, sarcástica, como é seu jeito, sobre o que ele chama de a praga politicamente correta. Ora, uma coisa desagradável não deixará de ser desagradável só por que eu a menciono de forma mais “atenuada”. O politicamente correto é a glorificação do eufemismo. Mas, é também uma ditadura da covardia que impõe um tipo de comportamento que visa ser agradável, quase superficial (e quase sempre falso e preconceituoso). Ouvi uma mulher falar, cheia de dedos, indicando um homem que lhe prestara um serviço lá qualquer: “Ah, é um rapaz assim:... moreninho!”. Quer mais preconceito que isso? Ora, que raio de cor é essa? Pois, a cor é preta e a etnia (não gosto do termo raça) é negra, minha senhora! Não há nisso nenhuma ofensa. Ofender é tratar quem quer que seja com desdém, falta de educação, com prepotência, arrogância e preconceito. A mim, esta praga politicamente correta parece uma demonstração de falsa virtude, de acatamento de uma visão “supostamente correta” do que seja a inclusão das minorias. Isso não diminui distâncias, mas sim realça as diferenças. É como se a profissão de alguém, a cor da pele ou qualquer disfunção ou deficiência física fosse um atributo imoral, uma coisa que só possa ser pronunciada à meia voz ou às escondidas. Beiramos, sim, as raias da discriminação quando não temos capacidade de reconhecer que valores morais têm de se sobrepor às diferenças físicas e intelectuais. Criamos com isso, relações pessoais de mentira calcadas na superficialidade, no egoísmo e no preconceito gerando uma sociedade igualmente mentirosa, superficial e hipócrita. Daí o resultado de as nossas instituições serem carcomidas pela mentira, ou devo dizer: “ausência da verdade”. Ou seja, faz-de-conta que somos um governo democrático, justo, honesto e preocupado com o bem estar social; e faz-de-conta que vocês são um povo ordeiro, honesto, trabalhador e cheio de civilidade. Você faz-de-conta que é verdade, eu faço de conta que acredito.

terça-feira, 27 de março de 2012

Entre a Cruz e a Montanha



A discussão permanece, então, o tema não se esvai. O Conselho da Magistratura do RS determinou, por unanimidade, atendendo requisição da Liga Brasileira de Lésbicas, a retirada dos crucifixos dos espaços públicos nos prédios da justiça gaúcha. Em seu voto, o relator afirma que uma sala de tribunal, sob o símbolo de uma igreja, não parece ser a melhor forma de se mostrar o Estado laico eqüidistante dos valores em conflito. Parece-me que a discussão é mais política que religiosa, não fosse assim, teriam pedido também a retirada da imagem da deusa Temis, aquela vendada que representa a Justiça. Não sei se com ou sem crucifixo a Justiça será melhor distribuída. Homossexuais e ateus militantes têm lutado arduamente para garantir seus direitos, nem sempre respeitados pelos religiosos. E isso é política. O peixe foi a representação do Cristianismo até o início da Idade Média, mudou, talvez, com o Concílio de Nicéia em 325. Sempre me pareceu estranha a adoração dos católicos pela cruz. Podem até afirmar que a cruz simboliza o martírio de quem sofreu para redimir a humanidade, mas continua sendo um objeto de tortura, de infâmia e de injustiça, usado para penalizar ladrões e criminosos, o que Jesus, com certeza, nunca foi. Ao contrário, sempre entendi que o maior incentivo à reforma do homem, como quer o Cristianismo, deveria ser o Sermão da Montanha, o Código ético e moral orientador de toda a humanidade, acima mesmo das religiões. Por isso, entre a Cruz e a Montanha, prefiro a Montanha. Os desesperados e famintos por justiça não têm sido saciados sob a égide da cruz. Mas, a sua manutenção ou retirada não significam nada. Nada será modificado. O coração dos homens é que precisa ser modificado, e essa mudança é intrínseca, íntima e pessoal; nenhum símbolo, por mais representativo que seja, tem poder para isso. É preciso vontade e consciência. Aos juízes não se deve cobrar postura religiosa, se crêem ou não em determinada facção. Antes, que sejam probos, que tenham espírito aberto, que tenham capacidade de distribuir a Justiça com equidade, imbuídos de compaixão e misericórdia pelos desvalidos e injustiçados. Mas, assim deveríamos ser todos nós, e talvez não precisássemos recorrer à Justiça. Até lá, um crucifixo na parede não consegue abençoar o lugar, e o Cristo nele representado, de braços abertos, não abraça a ninguém, e o sangue em seu rosto, não purifica nada.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Quem faz o trânsito?


A cada final de semana, principalmente neste verão interminável, as contas do trânsito são tragédias que se somam. Num primeiro instante, chocados, pomo-nos a refletir sobre tantas vidas perdidas inutilmente. Aí, sob o manto deste furioso egoísmo, percebemos que as vidas perdidas são “deles”, não as nossas ou dos “nossos”. Ah, triste engano! A morte pode estar na próxima esquina, na próxima curva, mesmo que o sujeito não tenha bebido ou que ande de acordo com as regras de trânsito e de civilidade.

Constantemente uso a BR-116 para visitar minha mãe, pois no pequeno trecho de estrada, pode-se ver claramente que a maioria dos condutores não anda a menos de 110 ou 120 Km/h. Como me diz minha mulher (a voz da consciência sentada no banco do carona): “O anjo da guarda só protege até 100, depois dos 120, não sobra nem o espírito”. Numa velocidade destas, com o tráfego intenso, um pneu furado, um descuido, uns goles a mais, e certamente vai acontecer outra tragédia. Tem gente que passeia ou vai trabalhar como se apostasse corrida. “Ai, o meu carro é mais bonito e mais veloz que o teu!” E as motocicletas? Meu Deus! Elas chegam, escondidas dos espelhos, de repente, passam tão rápido, tão espremidas entre os carros, num ronco ensurdecedor, que o motorista leva um susto. Ah, motoristas profissionais, táxis, ônibus, caminhões, tenham vergonha, vocês deveriam servir de exemplo e infelizmente um grande número não serve também. O pior é que neste negócio de motores potentes, direção perigosa, álcool e cérebros inábeis, o acidente acaba por envolver o condutor que não tem nada a ver com a irresponsabilidade alheia. Nas cidades a coisa não é melhor. A impunidade faz afagos na imprudência e na irresponsabilidade de quem só respeita a lei onde há pardal ou agente de trânsito com bloco de multas na mão. O resultado disso a gente vê nos jornais e nos necrotérios. As pessoas estão se matando e continuam acreditando que nunca vai acontecer com elas. Tá, o Estado tem um bocado de responsabilidade nisso, concordo. Mas, não dá para botar a culpa só na falta de sinalização ou fiscalização; ora, o condutor legalmente habilitado é responsável não só pelo seu veículo, mas pelos veículos e pelas vidas ao seu redor. Vamos parar para pensar. O trânsito não é cada um faz o que quer. A autoridade não pode estar em todos os lugares. Qualquer veículo, hoje se transforma facilmente numa arma a provocar ferimentos, sequelas e mortes. Impossível escolher onde se dará o prejuízo, se no bolso ou na vida. Toda esta tragédia, toda esta sangueira deveriam servir para reflexão mais profunda e não só momentânea. Pode ser com você amanhã..., ou comigo.

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