terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Então, eu conto!


Sonho de infância.


            Julinho é um menino mirrado, tem oito anos, mas isso ninguém diz por que ele aparenta só ter uns cinco. Ele é assim mesmo, amarelado, raquítico, desnutrido, de crescimento ruim para a idade; o que se percebe, no meio do rosto esquálido, é este par de olhos vivos, matreiros, como os olhinhos de um rato. Sua inteligência é curta, chega quase à idiotia, mas é esperto, isso sim, como qualquer bicho, já é ágil nas manhas da sobrevivência. Brinca no meio da rua, quase sempre está sozinho; pés descalços, roupa imunda, cara suja, olhos remelentos, nariz sempre fungando; dá uma corridinha e puxa as calças largas para a cintura. É invisível para a maioria dos que passam, por isso é uma criança triste e solitária.
            Mora no meio do beco sórdido, sempre sujo, cheio de lixo, num barraco de madeira de um cômodo só. Cozinha, sala e quarto misturados em promíscua confusão de mobília e trapos que se espalham pelo chão ou pendurados em pregos pelas paredes. O banheiro é uma casinha de madeira nos fundos do barraco, onde as aranhas e as baratas moram. Ali vive com a mãe e outros três irmãos: uma menininha de cinco anos, outro de três e outro que ainda chupa o seio minguado. Do pai não sabe nada, nem ao menos quem seja. Dormem todos na mesma cama desde que o atual companheiro da mãe foi levado pela PM; isso foi naquela noite de gritaria e confusão, a polícia batia, o homem gemia, a mãe gritava; levaram o homem no carro com as luzes girantes, a mãe chorou baixinho olhando a porta do barraco que ficou escancarada, depois, silêncio de novo. Antes disso acontecer, só o homem dormia na cama com a mulher; elas, as crianças, dormiam no chão, sobre uns panos velhos improvisados que eram seus colchões. Dormir no chão era frio, era duro, doíam-lhe as costas, e ele tinha medo das baratas. Não gostava daquele homem. Ele batia na mãe, vivia bêbado; e quando a mãe não estava, o homem botava-o para fora e ficava só com a irmã menor trancado em casa. Julinho colava o ouvido na parede do barraco e escutava o homem gemendo e fungando, até a irmãzinha começar a chorar. Além de tudo, o pior, aquele homem roubava seu lugar quente na cama da mãe.
            Julinho não estuda, não faz nada, apenas respira e anda. Sente uma fome constante e seu sonho de infância era dormir num colchão só seu. A mãe manda-o para rua de manhã cedo e diz que só volte à tardinha; e que tenha comido pela rua, porque em casa não há o que sustente a todos. Ele nunca se aventura muito longe de seu beco, perambula pelas redondezas fungando e puxando as calças. Sabe que alguém vai lhe dar o que comer, não sabe quem, não sabe onde; mas, como um rato, instintivamente, sabe que vai comer. O lixo pode conter maravilhas gustativas para quem nada tem. Anda por ali sozinho, ninguém se importa com ele, e ele também não faz importância da solidão; pelo menos, não terá de dividir com ninguém a comida que encontrar. Corre solto, livre pela rua, falando alto, alheio as pessoas e ao mundo a seu redor; corre montado num galho seco que é seu cavalo negro, de espada na mão, assim como o mocinho mascarado que viu num cartaz pregado na porta daquilo que ele chama: “uma loja de filmes”. As outras crianças que encontra não lhe interessam, não faz caso delas. Nenhuma delas sequer olha para ele, nenhuma jamais vai querer brincar com ele.
            Volta para casa e já é quase noite. No meio do beco, em frente ao barraco, está parada uma Kombi branca com alguma coisa escrita na porta que ele mesmo não sabe ler. Dentro do barraco há um soldado PM e outras pessoas. A mãe está chorando, sentada a um canto, olhos vidrados, catatônica, deserdada da sorte, desencantada com a sua miséria. Julinho, sem rir, acha graça na cara apatetada da mãe. Uma das moças vem falar com ele, diz que é de um tal “Conselho Tutelar” e que veio buscar a ele e aos irmãos para morarem numa outra casa, mas que a mãe não pode ir junto, que eles ficarão todos bem, que irão tomar banho e comer todos os dias. Julinho olha para a mãe e para o barraco imundo, volta-se e pergunta à moça se vai poder também dormir num colchão só seu. “Vai tomar banho, trocar de roupa, brincar, jantar e dormir numa cama bem limpinha”.
            Julinho agora vai feliz dentro da Kombi, já não pensa mais na mãe que ficara chorando sozinha no barraco sem luz. Está aliviado, sorri satisfeito, até que enfim, vai poder dormir numa cama com colchão. Longe das baratas. Um colchão só seu,... Só seu!



*


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Esqueci meu Passaporte



              Chegamos de viagem. Voltamos para casa, a Zildinha e eu, depois de uma curta temporada em João Pessoa. Trazemos, ainda, nas retinas, aquela beleza toda, aquela cor de esmeralda que é do morno mar da Paraíba. Coqueiros, coqueiros, coqueiros altíssimos, ao longo das praias, cheios de cocos, vejam só. A Ponta do Seixas, o ponto mais próximo da África de todas as Américas. Eles dizem que se você tomar um gole da cachaça local e firmar bem os olhos começa a ver as girafas e elefantes do outro lado, se não conseguiu ver, é por que bebeu pouco. O pôr do sol no Jacaré, ao som do Bolero de Ravel, é inesquecível. A feirinha de artesanato no Tambau é parada obrigatória. Ruas limpas, trânsito ordeiro, árvores, muitas árvores. Mas, o melhor de João Pessoa, apesar da beleza desbundeante, são as pessoas, é a gente de lá que faz o melhor de lá. Educados, gentis, interessados, hospitaleiros, e muito alegres. Uma alegria simples e contagiante. Um povo sem afetação. Nós, aqui do sul, estamos meio desacostumados da gentileza. Lá, recebíamos “bom dia!” de qualquer um que nos cruzasse o caminho. Uma coisa, por aqui, cada vez mais rara. Bem, mas como tudo que é bom, dura pouco, tivemos que voltar para nossa realidade.
                 Como num filme ruim, corta e muda de cena. Chegamos ao Aeroporto do Galeão para conexão para Porto Alegre. A gentileza de João Pessoa ficou em João Pessoa. A menina da GOL, na boca de saída daquele tubo, só disse: “Conexão para Porto Alegre: 2º andar, ala C.” E deu! Nenhum sorriso, nada de Boa tarde, Por favor me acompanhem, nem pensar. Fomos largados no saguão externo do Galeão, abarrotado de gente, e nós em conexão, sem saber onde é que tínhamos de ir. Bem, pergunta daqui e dali, sobe e desce escada, e chegamos a tal ala C. Pois, é o Embarque Internacional. E nós com bagagem de mão, vindos da Paraíba, só tentando voltar para o Rio Grande. Nova inspeção da ANAC. A Zildinha já ficou. Claro, na bagagem dela estavam perfume, desodorante, cremes de mão, de rosto, essas coisas todas e mais minhas seringas para a insulina. “Isso não pode passar.”, “Mas, como? Estamos em trânsito para Porto Alegre.”, “Não posso fazer nada! Regras da ANAC. Aqui é ala internacional.”, “Nós não temos nada com isso, a GOL nos deixou sozinhos...”, “Não posso fazer nada..., ou despacha de novo ou fica tudo.”, “Não tenho mais bagagem para despachar, fizemos o embarque em João Pessoa. Estamos num voo doméstico.”, “Não, não está! Esta é a ala internacional...”, enfim, perdemos a disputa,  deixamos o que tinha de ser deixado. Aliviaram a minha insulina.    

                    E toca em frente, olha a hora do embarque. Então, damos de cara com um brete que fazia voltas no salão. Aquilo lotado de gente, umas trezentas pessoas. Era a imigração. Cacete! Eu só quero ir para o Rio Grande. E o alto-falante berra: “Passaportes à mão! Todos estão sujeitos a nova inspeção, de acordo com a Lei Nº sei lá o quê.” Como assim passaportes? Tá certo que o Rio Grande só perde para o mundo em tamanho. Mas, que eu saiba, um cidadão rio-grandense não precisa de passaporte para voltar para o seu pago. Masaaahhh! Era o que faltava. E eu ali, suando feito porco, carregando bagagem de mão, mais brabo que cavalo xucro. Pois, atravessamos reto o tal do brete esse. Chamei um policial federal que ajeitava aquela fila, expliquei nossa situação, ele deu um xingão na ANAC e na GOL, e nos mandou passar apara o embarque. Depois de tudo, o voo ainda atrasou uns 40 minutos, nós escapamos do passaporte, mas a tripulação do avião não. Tiveram que enfrentar aquele brete. Então, agora quem é que vai dizer que não se precisa de passaporte para entrar no Rio Grande?

quarta-feira, 18 de julho de 2012

A Praga

                Nunca gostei de eufemismos. Sempre os tive na conta de “enganação”. Soa como coisa falsa, dita pelas costas, jeitosa demais. Eu estava no ginásio (só a Velha Guarda sabe o que é), não sei mais qual era o tema da aula, mas lembro que no meio da conversa, eu larguei o termo “leproso”, a professora corrigiu de pronto: “Não se fala leproso, é hanseniano”. Ah, me perdeu para sempre, e daí em diante desgostei da coisa. Passei também a desconfiar, há alguns anos, dessa baboseira que é o “politicamente correto”. Então, vem agora o Luiz Felipe Pondé com o seu livro “Guia Politicamente Incorreto da Filosofia” (que logicamente recomendo a leitura), fazer chover no meu jardim, onde planto as minhas florezinhas de ironia. Ele faz uma crítica profunda, porém, irônica, sarcástica, como é seu jeito, sobre o que ele chama de a praga politicamente correta. Ora, uma coisa desagradável não deixará de ser desagradável só por que eu a menciono de forma mais “atenuada”. O politicamente correto é a glorificação do eufemismo. Mas, é também uma ditadura da covardia que impõe um tipo de comportamento que visa ser agradável, quase superficial (e quase sempre falso e preconceituoso). Ouvi uma mulher falar, cheia de dedos, indicando um homem que lhe prestara um serviço lá qualquer: “Ah, é um rapaz assim:... moreninho!”. Quer mais preconceito que isso? Ora, que raio de cor é essa? Pois, a cor é preta e a etnia (não gosto do termo raça) é negra, minha senhora! Não há nisso nenhuma ofensa. Ofender é tratar quem quer que seja com desdém, falta de educação, com prepotência, arrogância e preconceito. A mim, esta praga politicamente correta parece uma demonstração de falsa virtude, de acatamento de uma visão “supostamente correta” do que seja a inclusão das minorias. Isso não diminui distâncias, mas sim realça as diferenças. É como se a profissão de alguém, a cor da pele ou qualquer disfunção ou deficiência física fosse um atributo imoral, uma coisa que só possa ser pronunciada à meia voz ou às escondidas. Beiramos, sim, as raias da discriminação quando não temos capacidade de reconhecer que valores morais têm de se sobrepor às diferenças físicas e intelectuais. Criamos com isso, relações pessoais de mentira calcadas na superficialidade, no egoísmo e no preconceito gerando uma sociedade igualmente mentirosa, superficial e hipócrita. Daí o resultado de as nossas instituições serem carcomidas pela mentira, ou devo dizer: “ausência da verdade”. Ou seja, faz-de-conta que somos um governo democrático, justo, honesto e preocupado com o bem estar social; e faz-de-conta que vocês são um povo ordeiro, honesto, trabalhador e cheio de civilidade. Você faz-de-conta que é verdade, eu faço de conta que acredito.

terça-feira, 27 de março de 2012

Entre a Cruz e a Montanha



A discussão permanece, então, o tema não se esvai. O Conselho da Magistratura do RS determinou, por unanimidade, atendendo requisição da Liga Brasileira de Lésbicas, a retirada dos crucifixos dos espaços públicos nos prédios da justiça gaúcha. Em seu voto, o relator afirma que uma sala de tribunal, sob o símbolo de uma igreja, não parece ser a melhor forma de se mostrar o Estado laico eqüidistante dos valores em conflito. Parece-me que a discussão é mais política que religiosa, não fosse assim, teriam pedido também a retirada da imagem da deusa Temis, aquela vendada que representa a Justiça. Não sei se com ou sem crucifixo a Justiça será melhor distribuída. Homossexuais e ateus militantes têm lutado arduamente para garantir seus direitos, nem sempre respeitados pelos religiosos. E isso é política. O peixe foi a representação do Cristianismo até o início da Idade Média, mudou, talvez, com o Concílio de Nicéia em 325. Sempre me pareceu estranha a adoração dos católicos pela cruz. Podem até afirmar que a cruz simboliza o martírio de quem sofreu para redimir a humanidade, mas continua sendo um objeto de tortura, de infâmia e de injustiça, usado para penalizar ladrões e criminosos, o que Jesus, com certeza, nunca foi. Ao contrário, sempre entendi que o maior incentivo à reforma do homem, como quer o Cristianismo, deveria ser o Sermão da Montanha, o Código ético e moral orientador de toda a humanidade, acima mesmo das religiões. Por isso, entre a Cruz e a Montanha, prefiro a Montanha. Os desesperados e famintos por justiça não têm sido saciados sob a égide da cruz. Mas, a sua manutenção ou retirada não significam nada. Nada será modificado. O coração dos homens é que precisa ser modificado, e essa mudança é intrínseca, íntima e pessoal; nenhum símbolo, por mais representativo que seja, tem poder para isso. É preciso vontade e consciência. Aos juízes não se deve cobrar postura religiosa, se crêem ou não em determinada facção. Antes, que sejam probos, que tenham espírito aberto, que tenham capacidade de distribuir a Justiça com equidade, imbuídos de compaixão e misericórdia pelos desvalidos e injustiçados. Mas, assim deveríamos ser todos nós, e talvez não precisássemos recorrer à Justiça. Até lá, um crucifixo na parede não consegue abençoar o lugar, e o Cristo nele representado, de braços abertos, não abraça a ninguém, e o sangue em seu rosto, não purifica nada.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Quem faz o trânsito?


A cada final de semana, principalmente neste verão interminável, as contas do trânsito são tragédias que se somam. Num primeiro instante, chocados, pomo-nos a refletir sobre tantas vidas perdidas inutilmente. Aí, sob o manto deste furioso egoísmo, percebemos que as vidas perdidas são “deles”, não as nossas ou dos “nossos”. Ah, triste engano! A morte pode estar na próxima esquina, na próxima curva, mesmo que o sujeito não tenha bebido ou que ande de acordo com as regras de trânsito e de civilidade.

Constantemente uso a BR-116 para visitar minha mãe, pois no pequeno trecho de estrada, pode-se ver claramente que a maioria dos condutores não anda a menos de 110 ou 120 Km/h. Como me diz minha mulher (a voz da consciência sentada no banco do carona): “O anjo da guarda só protege até 100, depois dos 120, não sobra nem o espírito”. Numa velocidade destas, com o tráfego intenso, um pneu furado, um descuido, uns goles a mais, e certamente vai acontecer outra tragédia. Tem gente que passeia ou vai trabalhar como se apostasse corrida. “Ai, o meu carro é mais bonito e mais veloz que o teu!” E as motocicletas? Meu Deus! Elas chegam, escondidas dos espelhos, de repente, passam tão rápido, tão espremidas entre os carros, num ronco ensurdecedor, que o motorista leva um susto. Ah, motoristas profissionais, táxis, ônibus, caminhões, tenham vergonha, vocês deveriam servir de exemplo e infelizmente um grande número não serve também. O pior é que neste negócio de motores potentes, direção perigosa, álcool e cérebros inábeis, o acidente acaba por envolver o condutor que não tem nada a ver com a irresponsabilidade alheia. Nas cidades a coisa não é melhor. A impunidade faz afagos na imprudência e na irresponsabilidade de quem só respeita a lei onde há pardal ou agente de trânsito com bloco de multas na mão. O resultado disso a gente vê nos jornais e nos necrotérios. As pessoas estão se matando e continuam acreditando que nunca vai acontecer com elas. Tá, o Estado tem um bocado de responsabilidade nisso, concordo. Mas, não dá para botar a culpa só na falta de sinalização ou fiscalização; ora, o condutor legalmente habilitado é responsável não só pelo seu veículo, mas pelos veículos e pelas vidas ao seu redor. Vamos parar para pensar. O trânsito não é cada um faz o que quer. A autoridade não pode estar em todos os lugares. Qualquer veículo, hoje se transforma facilmente numa arma a provocar ferimentos, sequelas e mortes. Impossível escolher onde se dará o prejuízo, se no bolso ou na vida. Toda esta tragédia, toda esta sangueira deveriam servir para reflexão mais profunda e não só momentânea. Pode ser com você amanhã..., ou comigo.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Já chegamos ao fundo ou não?


Eu já tinha prometido a mim mesmo que não comentaria mais nada sobre a “droga” de programação da TV aberta, mas o cronista nunca pode furtar-se ao momento, mesmo que seja um momento de estupidez massificada. Então, pois, é preciso comentar. O âncora do Jornal Nacional anunciou uma notícia “séria”: a polícia carioca investiga se houve ou não estupro na “casa mais vigiada do Brasil”. Ah, isso, sinceramente, não me interessa. Afinal, quem sai na chuva sabe que vai se molhar. Lógico, a violência, se houve, deve ser punida, não só o violentador, mas também a quem viu e tinha o dever de interrompê-la, como a produção do tal programa. O BBB então não é para isso? Faturar milhões, muitos milhões, incentivando a banalização do sexo, depois de uma farra regrada à droga (é sim, o álcool também é droga). Afinal, não é isso que desperta o interesse do público? A avidez desse público na busca da imagem de um “amasso”, do sexo oculto pelo edredom, ou como disse a “mocinha” supostamente violentada: “a mão naquilo e aquilo na mão”, é essa avidez que paga os milhões. Mas, a emissora não se preocupa se houve ou não a violência, a sua preocupação é manter os níveis de audiência que, com certeza, aumentaram os milhões do faturamento ganancioso. Já chegamos ao fundo ou não?

Interessa-me saber que neste país a cada hora uma mulher é estuprada e uma criança sofre abuso sexual (essa estatística criei agora, mas a realidade, talvez, seja pior). Enquanto os “brothers” se refestelam nas suas farras, as Delegacias da Infância e da Mulher continuam com suas deficiências de material humano e de infra-estrutura para a consecução do seu objetivo na segurança pública. A linha deste “show” é de incentivo ao sexo descompromissado, da coisificação do ser humano, do apelo à vaidade e ao corpo, de polemizar o que é desimportante. Nada que nos engrandeça como entes humanos. Quando este assunto ficar “chato”, outra “polêmica” vai aparecer para merecer “mais uma espiadinha”. A emissora que, propositalmente, deixo de citar para não dar mais audiência, ainda está a enfiar-nos pela goela o tal MMA, ao qual tenta dar caráter de esporte, onde dois homens rebaixados à condição de trogloditas, num ringue octogonal, esmurram-se, esmagam-se até o sangue brotar sem que o “árbitro” intervenha. Talvez, quando morrer alguém, quem sabe? Afinal, o povo gosta disso por que isso está aí? Ou isso está aí por que o povo gosta? Parece que a vida real não tem problemas suficientes. O que deve ser importante nas nossas vidas? O que é importante, afinal?

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

E falando em Deus...


Como tem sido fácil e despreocupado falar-se em Deus. “Seja o que Deus quiser!”, “Se Deus permitir, ganho na loteria.”, “Guiado por Deus, dirigido por mim.”, “Se Deus quiser, passo no vestibular (hã, hã, não estude para ver).” Fácil como se Deus fosse o responsável pelo nosso sucesso ou fracasso. Acho isso injusto com a divindade. Confesso a minha dificuldade em falar Nele. Talvez, com a idade, tenha me tornado cético. Eu disse: cético, não ateu! Acredito que o progresso só vem com trabalho, estudo e esforço. Não creio na graça fácil, é preciso perseverança em tudo, até para lidar com Deus. Ele não é um ídolo material, palpável, como um astro de rock ou um guru sábio e místico. Sobre Deus não se sabe nada. Afinal, o que é Deus? Qual a sua essência? Voltaire dizia que “se Deus não existisse, teríamos de inventá-Lo.” É isso! Tudo o que entendemos de Deus é conjectura humana. Nem a Sua existência podemos provar. Ora, basta que se pense em uma coisa para que ela exista. Isso não é ceticismo, é fé raciocinada, contrapondo-se à fé cega, aquela do “acredita ou morre.” Fé significa confiança, e só confiamos naquilo que conhecemos. Portanto, Deus não é para ser acreditado, é para ser conhecido. Fico com Santo Agostinho: “Se me perguntam o que é Deus, eu não sei; mas, se não me perguntarem, eu sei.”

Muitos pregam a Deus como um conceito econômico: para se ganhar dinheiro é preciso investir dinheiro. Logo, o homem só será feliz (materialmente) se aplicar seus recursos (às vezes poucos) na sua “religião”. Ora, a presença de Deus em nós é muito maior do que ser agraciado com dádivas materiais como sucesso empresarial, melhor salário, melhor emprego, ou mesmo saúde. Outros, considerando-se ateus inteligentes atacam tudo que seja de natureza espiritual, como se aceitar a divindade fosse sinal de ignorância. Mas, Deus não é privilégio de nenhuma religião-instituição; e, certamente, não se ressente com aqueles que o renegam, pois o ressentimento é uma atitude meramente humana. Ele está acima de tudo isso, de ateus e de deístas. Os homens podem até incendiar o mundo em Seu nome, mas Ele não terá nada a ver com isso. A verdadeira religiosidade é apenas sentida, não tem dogmas, nem paramentos, nem formalidades exteriores, muito menos rituais. Portanto, pregadores, sacerdotes, profetas, ateus e agnósticos, quando falarem em Deus, façam-no com brandura, com equilíbrio e harmonia, possivelmente a verdadeira essência de Deus. Afinal, há tanta injustiça para se corrigir, tantos sofredores a socorrer, tantos desvalidos a se cuidar.

sábado, 8 de outubro de 2011

Ai, esse silêncio...



O silêncio não é só a ausência de som. Pode, às vezes, ser ensurdecedor. Há um silêncio na natureza, que precede as tempestades, e há o silêncio, sinal de estupidez, de estarrecimento diante do que parece inexorável. Esse é o incômodo silêncio que vem das ruas! Não como prenuncio de fúria, mas como sinal de perigosa acomodação. Esse deixa estar, deixa ficar. Esse silêncio do “nada mais importa!” desde que eu consiga o “meu”. O mesmo silêncio que serviu de fanfarra à festa da exploração da América Latina. O silêncio do servilismo que dobrou a coluna vertebral diante das intocáveis majestades que tudo podem. E que ainda continua servindo e dobrando-se. Continuam os desmandos dos coronéis do açúcar, do café e do gado, não mais nas figuras do “sinhô” e da “sinhá”, mas agora travestidos na política. Intocáveis, locupletados de prerrogativas legais exclusivas, servindo-se do bem público como se privado fosse. E, a tudo, a grande massa de povo inculta e aculturada, se cala. Sempre subserviente, temerosa de perder as benesses sociais que lhe caem ao colo. Nada mais que migalhas, as sobras da mesa farta. Onde a segurança pública? Onde a saúde pública? Onde a educação? Coisas de menor importância. Afinal, vêm aí a Copa do Mundo e as Olimpíadas. “Oh! Não temos ainda uma Seleção confiável”. A grande preocupação! Calou-se, nos corações, a revolta cívica do esquecido Tupac Amaru. Simon Bolívar e San Martin são apenas figuras dos livros de história (pouco lidos) e Tiradentes foi apenas um "barbudo" que morreu enforcado.

Esse silêncio constrangedor é fruto do egoísmo das nossas individualidades. A solidariedade e a responsabilidade coletiva deveriam ser os motores que colocariam em funcionamento uma sociedade mais humanista. Hoje, Rui Barbosa é cada vez mais atual: De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”. O povo é quem deve governar o governo. Mas como? Se cada povo faz governo de seus pares.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

As baboseiras “internéticas”




Meus caros amigos, por favor, não me mandem mais mensagens que falem de conspirações em desfavor da humanidade. Morro de rir disso tudo e, no mais das vezes, nem leio tudo, vou até a terceira ou quarta linha, desisto e apago. Aceitem um conselho deste amigo velho: cresçam!!! Vocês já viram como quem te enviou a “notícia quente” recebeu de alguém que recebeu de alguém? Em qualquer roda de boteco tem um sujeito “que sabe das coisas” porque conhece o primo de um vizinho que é irmão do amigo do tio de um americano que fugiu do FBI porque descobriu que o “McDonald’s” é feito de minhoca. Ou que tem um sujeito no metrô com uma seringa infectada com a AIDS, que foi inventada pelos demoníacos americanos para acabar com o terceiro mundo, ou que foi o Pentágono que mandou atacar as Torres Gêmeas só para ter a desculpa de invadir o Iraque e o Afeganistão, ou que a família real britânica está por trás da morte de Lady Diana, e Adolf Hitler morreu de velhice na Argentina. O Chico Xavier mandou uma mensagem revelando a nova identidade do Emmanuel. Outras boas: nos EUA, usam mapas alterados e ensinam as crianças que a Amazônia não tem dono; os americanos, disfarçados de alemães, afundaram nossos navios para que o Brasil entrasse na II Guerra. Já viram como sempre são os americanos os vilões? O Hugo Chaves garante que eles são mesmo. De como eles querem dominar o mundo (como se já não fosse deles), no melhor estilo dos ratinhos Pinky e Cérebro, ou do Dr. Evil, aquele do Austin Powers?

A melhor de todas as “baboseiras internéticas” é a do sujeito que acorda numa banheira de motel, mergulhado no gelo, e encontra um bilhete que diz para ele correr para um hospital, pois lhe roubaram os rins. Essa é sensacional! Os caras que roubam os rins são uma gente tão boa, que não matam e ainda avisam o desgraçado que ele está... morrendo. É impressionante o que tem de besteira na Internet. Mais impressionante ainda é a quantidade de “bestas” que acreditam nessas asneiras. Mas, isso eu sei: é só preguiça de informar-se, de ler, de conhecer um pouco de história. E se você não passar adiante a vinte pessoas, seu cérebro, já diminuto, vai desaparecer. Deixo-lhes um pensamento, uma coisa interessante que achei na Internet (olha eu!), de um mestre do humor, o (americano) Groucho Marx: “Ele pode parecer um idiota e até agir como um idiota, mas não se deixe enganar, ele é mesmo um idiota!”.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Tempos áridos


Ai, como são sombrios e áridos os tempos em que vivemos. Não, não pretendo que este seja um texto depressivo. Valho-me, antes, da metáfora de que a madrugada é mais escura quando o sol está para nascer. Mas, é preciso estar alerta. Como pode estar acontecendo diante de nossos olhos? Bandos de crianças invadem lojas, hotéis, saqueiam, desafiam, protagonizam escândalos, abandonadas que são por quem deveria cuidar-lhes os caminhos, com carinho e educação. O mundo político e econômico em uma perigosa convulsão. Doidos armados atiram a esmo, explodem-se e levam consigo inocentes, no mais das vezes, em nome de Deus (?). Homens públicos que deveriam servir à Pátria desconhecem esse conceito grandioso e servem-se dela. Entorpecidos pelo álcool, motoristas matam e a impunidade lhes garante o sono. As estradas e ruas das cidades competem com os serviços de saúde pela sua cota de mortos. Por inépcia e inaptidão, abrem-se as portas dos presídios por que lá já não se recuperam os que faltaram com a civilidade. Justiça mal feita é injustiça. Não há heróis. Somos todos vítimas da brutalidade, do desrespeito ao mais elementar dos direitos, viver em paz, com ordem, com saúde, com trabalho digno, com esperança, enfim. Déjà vu. Está aberta a oportunidade para os rebeldes encantadores do povo. Já não são poucos os que sentem falta dos tempos duros de uma ditadura, os que sonham com a ordem estabelecida pela força bruta. Sofremos a dureza destes tempos acreditando que a paz há de vir pelas mãos firmes de um demagogo que desafie toda esta ordem de coisas sem sentido. Mas, a paz não pode vir de fora, ela tem de nascer em mim primeiro. Não se pode consertar o mundo todo sem antes consertar a própria casa. Se queres, amigo leitor, a tua cidade limpa, começa limpando a tua casa e a tua calçada, para que isso sirva de modelo aos que te vêem. Algo de bom deve ter sobrado em nós para superarmos a aridez e o vazio do consumismo. Que os nossos heróis, se um dia os tivermos, tenham mais caráter e menos dissimulação. Que espiritualidade se sobreponha aos interesses materiais. Espiritualidade, não religião, que essas também são fruto de escândalo, de ignorância e exploração. Busquemos, em nós e em tudo o que nos cerca, um pouco do bom, do belo e do verdadeiro. Um homem de bem se conhece pela trilha que deixou atrás de si.

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