quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Nome aos bois



Chega! Alguém tem de pagar essa conta na justiça! Existem corpos em putrefação misturados à lama no meio das ruas extintas. Automóveis foram parar nos telhados das casas e a maioria das casas não existe mais. Hoje, quando escrevo esta crônica, temos em torno de 720 mortos, mas, pelo visto, o número vai chegar ao milhar. Muitos corpos jamais serão encontrados e milhares de pessoas vão penar sem abrigo certo por muito tempo. A enxurrada que varreu a região serrana do Rio é o tema de uma crônica de um desastre anunciado. No entanto, apesar da dimensão histórica, uma chuvarada assim só é desastre se tiver gente por perto. Os meteorologistas dizem que sempre foi assim, e não é só por causa do “aquecimento global”. Vivemos num país tropical (pelo visto, nem tão abençoado como se quer) e sempre estivemos expostos às intempéries. Mas, se sabemos que existem riscos, por que as pessoas constroem suas casas nas encostas, nos barrancos dos rios, enfim, em áreas de extremo perigo? De quem é a culpa, afinal? Bem, muita gente culpa a Deus, afinal, não foi Ele que fez a natureza como é? Outros culpam ao povo mesmo, pois, quem mandou querer morar em áreas de risco? Outros, ainda, querem culpar o Estado. Ora! Entendo que nenhum tribunal pode processar o Criador. Prerrogativas de quem tem endereço incerto e não sabido. Quanto ao povo..., bem, este já está cumprindo pena por sua imprevidência de morar onde não deve. Ah, tem o Estado! Mas, Estado, assim só, é um conceito muito vago e abstrato. E quanto se trata de responsabilidade penal, então, não se atinge ninguém. A Justiça (que também é Estado) deve colocar um fim nesta impunidade, dando nome aos bois, iniciando por responsabilizar as “excelências” que foram eleitas para reger e fiscalizar as municipalidades. Comecemos assim: quem autorizou as construções em áreas, notadamente, de risco? Se forem construções irregulares, quem não fiscalizou e não retirou os invasores (hoje vítimas)? É fácil andar de helicóptero, sem sujar os pés na lama, e prometer mundos e fundos aos desassistidos da sorte. Quero ver um prefeito com coragem (eu ia dizer outra coisa) para tomar decisões impopulares, as que não dão votos, mas que podem salvar vidas. Acho que não verei isso tão cedo. As desgraças ainda podem continuar, pois o verão não terminou. Mas, no ano que vem, pelo histórico, tem mais. E, com certeza, ninguém será punido.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Apoteose


Quase ao final do ano passado, em 29 de novembro, Mário Monicelli suicidou-se em Roma. Aos 95 anos, o cineasta, um dos “maestros” da comédia italiana, arrojou-se pela janela do Hospital San Giovanni, onde estava internado para tratamento de um câncer na próstata.

Apesar da obra vastíssima, a crítica internacional sempre o colocou num segundo plano, como um inferior a Fellini, Pasolini, Visconti, Bertolucci, Rosselini, Tornatore e até a Roberto Begnini. Uma tremenda injustiça. Desde 1935, quando lançou “I ragazzi della Via Paal”, com Alberto Mondadori, seu trabalho oscilou entre a comédia e o drama. Dirigiu com maestria os melhores da Itália: Vittorio Gassman, Cláudia Cardinale, Totó, Sophia Loren, Mastroianni, entre outros tantos.

Seu drama era sempre denso e a comédia, deliciosa. Para ele o riso do povo era uma arma letal. Deixou isso plasmado em 1971 em “A Mortadela”, com a ainda exuberante Sophia Loren, interpretando uma bela napolitana barrada no aeroporto de Nova Iorque por que tinha consigo uma mortadela gigantesca, presente para seu noivo; em 1992, com “Parente é Serpente”, com Tommaso Bianco, ele nos mostra o desinteresse das famílias pelos seus velhos e a superficialidade das relações de parentesco. Mas, sua melhor comédia é de 1966, com Vittorio Gassman, “L’Armata Brancaleone” (O incrível exército de Brancaleone), onde um pequeno grupo de vagabundos esfomeados, durante a Idade Média, parte numa aventura para tomar posse de umas terras no sul da Itália, entre encontros e desencontros, duelos bizarros, Monicelli nos dá uma demonstração de resistência tenaz dos pequenos, dos explorados e excluídos.

O seu melhor drama é de 1963 com Mastroianni, “I Compagni” (Os Companheiros), contando a emblemática luta de um intelectual desempregado, o professor Sinigaglia, na sua tentativa de organizar os trabalhadores de uma fábrica de Turim, no final do século XIX, quando a exploração do trabalho operário não encontrava nenhum limite. O filme proibido durante o período militar, representa o papel do intelectual engajado nos problemas de seu tempo e da sua sociedade, que entende que sua voz há de estar à serviço do povo, e não de interesses privados, mesmo que sejam dos gabinetes de governo, portanto, livre para criar como queira. A figura deste intelectual hoje está esvaziada, ele já não se insurge contra a corrente, pois sua arte é patrocinada pelo poder. Apesar de décadas passadas, o discurso é atual.

Monicelli fechou sua última cena num final apoteótico, da janela do quinto andar do hospital salta sobre o abismo que separa a náusea de uma existência medíocre do sentimento de ser realmente livre para viver as próprias escolhas. Só quem perde com sua partida somos nós, os cinéfilos.

Corta! Grazie, maestro, Monicelli!

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sobre virtudes e caráter



O assunto Ronaldinho Gaúcho no Grêmio, como quer sua Diretoria, é tema do passado. E deve mesmo ser assim. Não se pode valorizar demais as coisas que não trazem nenhum benefício para a sociedade. No entanto, fica do caso uma lição a ser melhor analisada.

Todos os homens trazem em si a capacidade de adquirir qualidades morais valiosas que os façam melhores na vida de relação tanto com os outros quanto com a sociedade em que se vive. A essas qualidades morais dá-se o nome de virtudes, coisas como: ética, urbanidade, caráter ilibado, lealdade, integridade; enfim, as virtudes de um homem de bem. Mas, se é fácil descrever as tais virtudes abstratamente, a complexidade das relações humanas, as exigências da vida, no cinismo deste século, superficiais e supérfluas, tornam a prática destas virtudes uma atitude muito difícil.

As virtudes só se aprendem se tivermos o exemplo delas na nossa formação. Ninguém aprende a cantar se nunca ouviu música. Mas, o pouco que se tenha adquirido precisa ser conservado. O homem de bem precisa ser vigilante consigo mesmo, sempre. O menor deslize pode arranhar sua imagem perante o mundo. Como diziam os romanos: “Não basta à mulher de César ser mulher de César, é preciso parecer mulher de César”. Um caráter ilibado, um bom nome, são coisas difíceis de conquistar, em compensação são muito fáceis de perder.

As instituições são sempre superiores aos homens que as servem, mas figuras públicas deveriam cuidar melhor de sua imagem, uma vez que sempre acabam por servir de modelo a alguém. Seja de um astro dos campos de futebol que não se dá ao respeito descumprindo a palavra empenhada, até um ex-presidente que trata a coisa pública como se privada fosse, brindado por autoridades subservientes com benesses do Estado, como férias em área restrita e documentos a que não fazem jus seus familiares. É sempre lastimável ver o ser humano buscando mais o “ter” antes de “ser”. O tesouro do homem está onde está seu coração. Aos irmãos Assis Moreira, pois, só se pode desejar dinheiro, todo o dinheiro que possam amealhar; e ao senhor ex-presidente, ainda no deslumbramento do poder, que tenha boas e longas férias.

E não se fala mais nisso, são coisas pequenas de gente pequena.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Para a cidade que me acolheu


Canoas já não passa

Canoas passava lentamente pela janela do meu ônibus. Travessia obrigatória para quem vinha do Vale: Colchões Trorion, Praça do Avião, Aeroclube, as casinhas brancas dos oficiais do QG da Aeronáutica, lá estavam os pontos de referência no meu caminho de Sapucaia até o trabalho de metalúrgico em Porto Alegre. Todos os dias, apenas um olhar de quem sempre passa e nunca fica. A mim parecia bucólica, embora apressada, convidativa, porém. Na bolsa, a marmita preparada pela mãe, com o carinho que só as mães têm; na cabeça, os sonhos de guri; nas mãos, sempre um livro, qualquer que fosse, leitura difícil sob os trancos e solavancos do ônibus sobre a rodovia de uma só pista: a “federal”. Depois o bairro Niterói, espraiado, com cinema na beira da “faixa” e, então, o rio Gravataí e Porto Alegre. Canoas novamente, só à noite, no retorno para casa.

“Quem sabe, um dia, ainda não vou morar por aqui? Numa daquelas casinhas brancas do QG?”. Pois é! Nosso único destino é traçar os próprios caminhos. Cresci, estudei, me fiz homem, estudei mais, ganhei o mundo trabalhando nas asas da Força Aérea, voltei depois de vinte anos. E não é que terminei por morar numa daquelas casinhas brancas? E só aí, então, descobri Canoas. Vibrante, crescente, operosa, fragmentada, dividida pela rodovia de trânsito alucinante, espremida pelos muros do trem, assustadora aos olhos que só vêem contornos. Mas, uma cidade como Canoas não é feita só da dureza do seu concreto. Ah, os parques! As praças! Os ipês, os jacarandás, as timbaúvas, os majestosos guapuruvus, com eles a vida passa mais devagar.

E as gentes daqui, então? Esse povo é o sal da terra, é o que dá gosto de aqui viver. Fui ficando, o lugar me aceitou, acabei igual entre iguais. Aqui conheci pessoas que fazem cultura em alto nível: escritores, poetas, artistas, atores, companheiros de letras e artes. Aqui plantei meus amigos, meus discos, meus livros e... algumas árvores. As raízes de tudo isso cresceram, fixaram-me neste solo. Meu neto nasceu aqui, o primeiro membro canoense da família. Canoas já não passa lentamente por mim, estou nela como ela está em mim. Uma simbiose de respeito e afeto que já ultrapassou a barreira do simples “morar”, Canoas e eu vivemos agora uma relação de “ficar”.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Nós, os medíocres


Que ninguém se ofenda ao ser chamado de medíocre. Ordinário, mediano, comum, sem relevo, é isso o que significa medíocre. Não é aquilo que está abaixo da média, mas aquilo que não atinge um “status” melhor. O mundo inteiro é habitado, na grande maioria, por medíocres. Abaixo dessa média já é a área de atuação dos idiotas, dos imbecis, dos parvos, dos “bobos de aldeia”. De vez em quando, Deus, penalizado com a nossa mediocridade, manda-nos uns e outros bem acima da média. Alguns iluminados como Beethoven, Mozart, Da Vinci, Lutero, Descartes, Allan Kardec, Spinoza, Florence Nightingale, Machado de Assis, Chico Xavier, Victor Hugo, Einstein, Madre Tereza, Pelé, Elis Regina, Elvis, e por aí vai entre outros tantos admiráveis. Homens e mulheres que romperam com genialidade a barreira do medíocre e ficaram entre os melhores naquilo que faziam. Tornaram-se um padrão de excelência, acima de todos os outros, longe do lugar comum. Ah, ah, você percebeu, não é? A não inclusão de políticos na lista acima é proposital.

Pois é! Nós somos medíocres. Vivemos mergulhados na mediocridade. E como medíocres, nossas escolhas hão de ser também medíocres. Por que, então, tanto espanto com a eleição do Tiririca? Não dizem que a índole do brasileiro é ser “alegre, informal e sacana”? Pois aí está! E por que não o Tiririca? Se já tivemos o exótico Juruna, o Agnaldo Timóteo, o Clodovil, todos sempre tão mal vistos. O que faz dele, o Tiririca, um sujeito pior que outros semianalfabetos já eleitos? Ora, Tiririca é um palhaço, e como tal, se é que os palhaços ainda são assim, há de ter a sensibilidade para comover-se com as necessidades do povo. Não temos saúde, nem segurança, muito menos educação, que é o que salvaria tudo. E estamos aí a discutir os “royalties” do pré-sal. Ora, façaofavor, o povo não sabe o que é pré-sal, que se dirá de “royalties”. Vocês perceberam a mediocridade da campanha eleitoral para presidente? Tudo tão rasteiro como briga na feira. Todos tão iguais, todos são tão “bons”, todos lutaram contra a ditadura, todos fizeram “isso e aquilo”, são tão “religiosos”. Mas, acabam discutindo se foi “bolinha de papel” ou não o que “agrediu” um candidato... Tudo tão vazio. É isso que merecemos. Nós é que temos de crescer, sair da mediocridade, deixar de ser provincianos admiradores e idólatras dos que nem são tão bons e melhores. Lembrem-se, quem faz a nação não são os políticos, somos nós.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O Ovo da Serpente


O título deste artigo tomei de empréstimo do excelente filme de Ingmar Bergman que trata do horror da alvorada nazista ainda na República de Weimar. Trata-se de uma metáfora sobre a origem do mal que se vai instalando no tecido social. Conhece-se a origem, mas nada se faz para extirpá-lo, como esmagar o ovo antes que a serpente nasça. Assim a violência cresce ao nosso redor, atinge um nível de quase epidemia com absurdos índices de mortalidade. E nós? Estamos aí, vivendo a pasmaceira do egoísmo que nada vê ao seu redor, a não ser que a coisa seja conosco mesmos. Somente quando a violência atinge elevados índices de audiência na mídia, com casos pontuais de gente famosa, conseguimos dizer um “Oh! Que absurdo...!”, mas assim mesmo sem muita convicção. Isso porque convivemos com a violência e, insensíveis, não a percebemos mais. Não falo em crimes graves como assaltos e mortes e venda de drogas; aceitamos pacatamente as transgressões no trânsito; as agressões dentro das famílias; as atitudes anti-sociais dos que não respeitam filas em banco, em órgãos públicos, nos transportes coletivos; na exposição da infância à pornografia liberada, e à mostra, nas bancas de revista; daí se passa para o abuso sexual, violência psicológica e por aí vai. A causa dessa ruptura no tecido social não está só na impunidade, na falta de segurança pública, no desenvolvimento econômico precário ou na má distribuição de renda. Porque a causa determinante é intrínseca, está no comportamento do indivíduo.

É na formação da personalidade do homem, lá na tenra infância, onde está a violência “ab initio”, o ovo da serpente. Numa família desestruturada, pais que não assumem a postura de educadores, que não têm coragem de dizer “não” para combater as más tendências, estão moldando o transgressor de amanhã. Não se pode combater a violência somente com ações punitivas e repressivas como o aumento de efetivos policiais, a construção de presídios, desarmamento, diminuição das desigualdades ou reforma do judiciário. São necessárias ações preventivas, do engajamento da sociedade como um todo, dos pais, familiares, professores, governantes, das religiões; ora, que todos se façam presentes na educação e formação das crianças, mostrando-lhes o caminho da civilidade, da urbanidade, da alteridade e do respeito ao próximo. Sem isso, ainda vamos chorar por muitos anos por um mundo melhor, porque este em que vivemos ainda vai piorar muito. Pensem nisso.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Ô terrinha boa!


Para quem não sabe, nos EUA não existe atendimento público de saúde gratuito e nem ambulância do governo para buscar doentes em casa. Lá não tem SUS. Pobre ou rico, o sujeito tem de ter plano de saúde, normalmente ligado à empresa em que trabalha. A saúde não é socializada. Desempregados, imigrantes ilegais, mendigos, estão todos ferrados. Para saber mais recomendo o filme “Sicko” (S.O.S. Saúde) do Michael Moore.

Lógico, entre Brasil e EUA as realidades são muito distintas. Lá, a infra-estrutura funciona, a justiça funciona, a polícia não dá moleza, mas a saúde é uma droga. O grande irmão do Norte não quebra-galho, não tem “cesta” nenhuma, lá o estado não te dá nada. É capitalismo doído mesmo, selvagem. Já no Brasil... Ô terrinha boa! Não há melhor lugar para se viver. É sério! Ainda que deficiente, o governo é esse “paizão” cuidando do cidadão e de graça. Se uma cidadã não quiser engravidar, até a camisinha é grátis. Não usou preservativo? Pílula do dia seguinte. Ah, vai querer o filho? Auxílio-maternidade, pré-natal e enxoval. Quem vai sustentar esse menino? Bolsa-família. O jovem não tem profissão? Estágio remunerado ou Soldado-cidadão. Vai continuar estudando? Bolsa universitária e sistema de cotas. Cometeu um crime, está preso? (é pobre, por que rico não sabe o que é cadeia no Brasil) Tem o Auxílio-reclusão. Não tem onde morar? “Minha casa, minha vida”. Tá doente? Bem ou mal tem o SUS, tem o SAMU, tem vacinação para todo mundo. Ah, vai morrer? Não esquenta, o caixão é de graça.

Pois é, o sujeito tem de ser completamente abandonado ou muito vadio para morrer de fome neste país. E ainda tem gente que sofre o diabo para ir viver no exterior. Sujeitando-se a entrar clandestino, tratado como “la cucaracha”, arriscando-se a ser morto como terrorista. Tirando os sapatos para entrar legalmente, sendo farejado por cachorros nos aeroportos, e isso depois de implorar o visto de entrada. Aqui o sujeito é profissional formado, lá é lavador de pratos. Por que sair daqui? Se juntarmos todas as cestas e vales assistencialistas do Brasil, uma família pode muito bem viver sem que seus membros preocupem-se em trabalhar ou estudar para se qualificar. Chamam a isso: “diminuição das diferenças sociais”. Com certeza há quem realmente não tenha condições de deixar a miséria por meios próprios, mas para esses deve haver assistência social e não assistencialismo.

Eu ouvi Luiz Gonzaga cantar: “Ô, dotô, uma esmola para um pobre que é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão!”

sexta-feira, 30 de julho de 2010

O que nos falta? Educação!


Sempre que não temos capacidade de educar, orientar, ensinar ou mesmo de construir, nós proibimos. Proibir é legalizar o poder e a força, e também é um atestado de incompetência para o diálogo. Lembro-me do final dos anos 60, quando o movimento da Tropicália disparou contra o regime militar: “É proibido proibir!”. As proibições continuaram com o AI-5 por que o regime tinha a força e a proibição era a exibição do seu poder. A Tropicália escafedeu-se e foi ser cantada na Europa. Agora surge esse projeto de lei visando proibir os pais de surrar os filhos. O presidente Lula não quer as palmadas. Absolutamente concordo com ele, uma criança nunca deve ser agredida. Pais que batem nos filhos não sabem educar, talvez até por que também não foram educados. Mas, não aceito a proibição como método educacional. Educar não é proibir. O Estado não pode interferir na forma de os pais educarem seus filhos. Acredito existirem coisas mais importantes a serem discutidas no Congresso. Mas, de qualquer forma, trazer este assunto à discussão já foi uma vantagem.

Sempre que me perguntarem o que essencialmente nos falta, responderei: Educação! Neste caso, de pais e filhos, por exemplo, quem educa, orienta e não dirige, não proíbe, não bate, nem uma palmadinha de leve, essas “de amor”, como costumam dizer, por que dói do mesmo jeito e, na maioria das vezes, dói na alma. Às vezes, eu sei, dá vontade mesmo de chegar um beliscão numa criança birrenta. Mas, quem é o adulto na relação? Quem pode mais? Castigar sim, se houver necessidade. Mas, sempre, uma boa conversa séria faz a criança pensar, entender o que é responsabilidade por seus atos. Ai, ai! Ainda lembro-me das conversas do meu pai... Uma boa conversa deixa marcas mais profundas que uma surra, prepara a criança para o mundo adulto. Por que o mundo sim, esse não conversa, parte logo para a cobrança mais dolorosa. E pobre daquele que não foi preparado para o mundo. Pais e mães não podem ser vistos como brutamontes, sempre aos gritos e palavrões. Para uma criança os pais são sempre modelo de virtude e sabedoria, portanto, cuidado com o exemplo que se dá.

Uma lei proibindo a correção física paterna, no entanto, acho letra morta. É preciso educar e orientar o adulto para que ele saiba, com responsabilidade, orientar sua família. Como se faz isso? Não sei. Talvez educando a sociedade, talvez discutindo temas como este. Mas, sei que tudo começa na infância. Educação para as crianças sempre! Pensem nisso!

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Votar ou não votar? Eis a questão!

Tempo houve em que me afligi questionando a nossa jovem e incipiente democracia. Tantas são mudanças anuais na legislação, como desta vez a questão da Ficha Limpa, que poucos sabem o que “pode ou não pode”. É típico de quem vai “aprendendo à medida que vai fazendo”. Quantos escândalos, quantos erros, quanta gente medíocre e corrupta tão mal escolhida! Refletindo melhor, no entanto, se tudo que é novo carece tempo para madurar, por que não a democracia no Brasil? Acho que começo a ser mais tolerante.

Na faina diária do escritor, na busca pelo tema para a crônica, entre um e outro jornal, encontrei certa recente pesquisa do Datafolha sobre a corrida presidencial mostrando que 54% dos eleitores brasileiros, entre 2.600 entrevistados, em 144 cidades do país, ainda não sabem em quem votar. De fato, em cada eleição o desinteresse do eleitor parece aumentar e a maioria comparece às urnas apenas por causa da obrigatoriedade do voto. Votam pela imposição da lei e não por consciência cívica. Mas, o que esperar se é nauseante assistir a enxurrada de casos de corrupção. Votar ou não votar? Eis a questão!

O voto nulo é protesto, o voto em branco é: “tô nem aí”. Quem anula o voto está dizendo que nenhum candidato é digno de representá-lo; já o voto em branco é o coroamento do desinteresse e, talvez, o mais grave reflexo deste desinteresse. Mas, para quem pensa que se todos votarem nulo anula-se a eleição, podem esquecer. Votos nulos e brancos, apesar de legais, são apenas protesto. A explicação vem do ministro e presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Marco Aurélio Melo: o voto nulo acaba elegendo o político rejeitado, pois, quanto menor for o número de votos válidos, menos votos vai precisar um político tradicional e indesejável para ficar no cargo que já ocupa. Esclarece, ainda, o ministro que, de fato, a lei fala sobre novo pleito quando “a nulidade atingir a mais da metade dos votos no país”. Mas, essa “nulidade” se refere aos votos anulados por fraude, como a violação de urnas, entre outras razões, e não aos votos nulos do eleitor. Segundo o ministro, na eleição presidencial, por exemplo, pela Constituição, no artigo 77, “Será considerado eleito Presidente o candidato que, registrado por partido político, obtiver a maioria absoluta de votos, não computados os em branco e os nulos”. Ora, se não se computam os brancos e nulos, só restam os válidos, sem importar sua quantidade. Então, caro leitor ou leitora, se você não votar em alguém, estará aumentando a margem dos votos válidos para a vitória de quem você não quer ver eleito.

É certo que votar nulo ou branco é direito do eleitor. Se não gostar de ninguém não vote e pronto. Mas, tenho certeza de que existem homens e mulheres de bem, merecedores de voto e de confiança. Só é preciso garimpar.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Saber ouvir

Saber ouvir é uma arte, mas não dessas que se nasce sabendo, com o dom dentro de si, é sim uma arte de se desenvolver através do tempo, maturando na personalidade à medida que se cresce. E esse “crescer” também nada tem a ver com tamanho ou idade, é o amadurecimento, é o tornar-se adulto, para o quê não há idade certa. Tem adulto de 15 anos e adolescente de 50, depende do que se viveu e sentiu; depende do quanto se é responsável. Amadurecer, pois, não é ciência exata. Para saber ouvir é preciso saber calar, silenciar o pensamento. Deixar de lado as afoitezas da vida. Sem pressa, mas também sem vagareza demais. É isolar-se no silêncio para ouvir melhor os sons que nunca se ouviu. É voltar a prestar a atenção aos sons que esquecemos de ouvir. A chuva caindo no telhado, o vento nas árvores, o silêncio da hora morta da tarde, os grilos no fundo da noite. Sons para os quais a cidade grande e o nosso correr pela vida nos fizeram surdos. E o mais importante, talvez, que não sabemos ouvir: o que outras pessoas têm a dizer.

Nossa incapacidade de ouvir o outro é a manifestação mais evidente das nossas prepotência, arrogância e vaidade. Sempre que alguém fala algo, nós não ouvimos, pois temos pressa em acrescentar aquilo que queremos dizer. Como se tudo o que dissermos seja melhor do que diz o outro. Por quê? Ora, por que o assunto dos outros é sempre sem graça. Por que poucos de nós conseguem ver alguma coisa além do próprio umbigo. A arrogância é uma máscara da inferioridade. Quem é verdadeiramente superior não é arrogante.

Quando se estiver ouvindo alguém, não se deve interrompê-lo, ou completar a sua frase, isso não é educado. Quem sabe aquele que nos fala só precise desabafar, contar alguma coisa para alguém? Ouvir, muitas vezes, é emprestar o ombro a um amigo, é consolar sem precisar dizer uma palavra. É preciso entender o paradoxo: um diálogo que é um monólogo. Basta estar ali, de ouvidos abertos, de alma desarmada e com vontade de ajudar. Nem sempre é preciso dar alguma coisa para se fazer a caridade, saber ouvir, consolando, pode ser ato de misericórdia e compaixão. Além de demonstrar educação. Pensem nisso.

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