sábado, 26 de julho de 2025

 






A Superstição.

Os homens iniciam por entender-se na vida ao nível da opinião e como desconhecem as verdades, completam as lacunas de seu entendimento com as ideias inferiores das crenças. Somente com grande esforço e luta ingente livra-se da simples opinião para elevar-se ao nível do conhecimento. Essa luta chama-se educação, esclarecimento, o que Kant chama de aufklärung (iluminação), que abre a mente do homem para realidades nunca imaginadas pela simples opinião.

         A distinção de Platão entre ciência e opinião podemos equivaler, atualmente, entre conhecimento e superstição. É reconhecimento geral que a ciência revelou-nos realidades maravilhosas e extraordinárias do mundo natural, e mais, levou o homem à Lua, a medicina erradicou doenças antes mortais, a tecnologia criou computadores que nos trouxeram à era digital e à inteligência artificial. Quase todos afirmam também que superstição é pouco mais que tolice. Também é senso comum que se uma afirmação tem fundamento científico, deve-se investir nela como uma crença, ao passo que se a afirmação baseia-se em superstição, não vale a pena tratá-la com seriedade. Onde não há concordância, porém, é saber o que constitui ciência e o que constitui superstição. Porque aquilo que algumas pessoas chamam de ciência, outras chamam de superstição tola.

       A superstição parece ter por causa e fundamento a ideia pequena que fazemos do mundo, mais ainda da vida de relação que somos obrigados a ter com os outros. A Sorte e o Azar são ecos da deusa Fortuna, que nos leva pelo campo da ignorância, no instante que percebemos a contingência do mundo e as muitas possibilidades que um simples dia pode carregar; simplificando, isso nos faz temer. “Que tragédias nos visitarão hoje?” Essa pura incerteza nos coloca numa gangorra: medo e esperança. Não nos enganemos, no entanto, que nem sempre esperança é boa e o medo é ruim. São apenas expectativa em relação ao que o futuro trará. Se a expectativa for de alegria, haverá esperança, se a promessa é de tristeza, será o medo. A contingência da vida pode fazer qualquer uma das coisas se concretizar, mas o resultado da expectativa pode desaguar no seu oposto. A expectativa de que a coisa boa aconteça pode efetivamente se realizar, o que pode nos levar ao medo de não haver a mesma “sorte” da próxima vez. Ou o medo pode se concretizar, então haverá a esperança de que o problema desapareça. Medo e esperança são as duas faces da mesma moeda, tantas vezes lançada.

       A superstição nasce do caos que domina o mundo dos desejos desmedidos, como força que domina. A Razão, perde seu lugar, logo ela que levaria as massas à liberdade. Os homens passam a acreditar que objetos, tidos como sagrados, trazem sorte a quem os carrega; que a palma da mão indica presságios; que os planetas influenciam suas vidas, suas ações e suas personalidades. Queimar feiticeiras era plenamente aceitável, mas dar três batidinhas na madeira é superstição inocente. A realidade das coisas continua despercebida e questionada como se fosse uma mentira.

 

           


sexta-feira, 11 de julho de 2025

 




O rebanho.


Por meio das socializações, da vida de relação, os indivíduos aprendem noções de moralidade: bem, mal, certo, errado, justo, injusto. Esses valores, quando introjetados como verdades absolutas, sem passar pelo escrutínio da razão, impactam a individualidade e a autonomia dos sujeitos. A verdade e a mentira são construções que decorrem da vida no rebanho e da linguagem que lhe corresponde.”, é o que afirma Nietzsche. A ideia de moral para o homem do rebanho é chamar verdade aquilo que permite que ele permaneça no rebanho e chama de mentira o que pode ameaçar sua posição ou até excluí-lo do rebanho. Normalmente aquilo considerado pernicioso é o que vem ou está fora do rebanho. A moral evangélica do “amor ao próximo” estará sempre distante, pois na verdade o rebanho vive do “medo ao próximo”. E vangloria-se e alimenta-se desse temor. Logo, a verdade é a verdade do rebanho. Mesmo que essa verdade não seja a verdade, porque a verdade não importa, o que importa é como a massa entende a verdade.

O rebanho protege, mas também aprisiona. O rebanho, como um corpo único, tem horror àquele que pensa individualmente, por si mesmo. Pois este é o subversivo, é o perigoso carneiro rebelde que aspira tornar-se, senão lobo, igual ao lobo, ávido por tornar-se livre, senhor dos seus pensamentos, responsável por seus atos. O rebanho é lugar dos medíocres. Todo rebanho precisa de seu pastor ou cão guia; sem ele, o que pensar? O que fazer? O rebanho é dominado e conduzido por uma moral que, para prevalecer, para ser dominante, precisa que os indivíduos sejam todos iguais e não se diferenciem.

Essa moral de rebanho é sempre criada por uma ideologia institucional. A religião é uma fonte inventada para fornecer uma ideologia institucional. Imposta à sociedade como forma de verdade uma grande mentira: “Fora da religião não há salvação.” O objetivo é impor-se à sociedade com ganas de domínio cultural, político e econômico. A sociedade apenas obedece mansamente. Como o rebanho no pasto, em que o pastor é o algoz.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Palestra | Procura vir antes do inverno





Palestra realizada para a Associação Espírita Humberto de Campos
Tema: Procura vir antes do inverno
Referência: "Procura vir antes do inverno" - Segunda carta de Paulo a Timóteo
Palestrante: Gerson Colombo

terça-feira, 9 de junho de 2020

A palavra inútil.

“(...) Pois a boca fala do que está cheio o coração.
O homem bom do seu bom tesouro tira coisas boas, e o homem mau do seu mau tesouro tira coisas más.
Mas eu digo que, no dia do juízo, os homens haverão de dar conta de toda palavra inútil que tiverem falado.” Jesus. (Mateus 12:34-36)

Poetas, escritores, compositores, escultores, jardineiros, pedreiros, arquitetos, donas de casa, educadores, todos nós, enfim, qualquer que seja nossa arte ou mister, mostramos nossa alma, através de nossas realizações.

E a sua alma, como tem se exteriorizado?

Nas tarefas singelas que você realiza... Nas muitas palavras que você pronuncia... Nos conselhos que dá ao filho ou a um amigo... Com suas ações, o mundo ao seu redor fica mais belo ou mais feio? Mais alegre ou mais triste, mais nobre ou mais pobre? As suas ações correspondem às suas palavras?

Se por um lado somos responsáveis pelo que falamos e pela forma como expressamos nossas ideias, temos, como conhecedores e intérpretes da Doutrina Espírita, essa mesma responsabilidade aumentada. Estudando o Espiritismo, entendemos que toda a sua pedagogia volta-se para o Amor em todas as suas nuances. O educando é o foco, para que nele se faça, através do acolhimento e da empatia, a construção do conhecimento. Aqui não cabem uma forma agressiva de comunicação e nem a palavra inútil. Pois, como espíritas, quando falamos não somos nós que falamos, o mundo vê o Espiritismo falando.

“(...) que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca”. Jesus. (Apocalipse 3:15-16)

Aqui ainda é a palavra inútil o que Jesus ressalta. Quente é o que se dispõe a segui-Lo com resolução, decidido a tomar sobre seus ombros a tarefa de propugnar pela disseminação do Evangelho, sem preocupar-se com os percalços do caminho e sem tergiversar com o erro e com a mentira. Frio é o inimigo declarado do que é espiritual, o que preza mais pela matéria. Morno é o incompatível com os dois, uma mistura improvável. Gente morna é mais ou menos. Economiza afeto. É morno na religiosidade. Não se dá, não se entrega a tarefas ou maiores responsabilidades. Não tem certeza da Verdade do Evangelho, por isso Jesus diz que os vomita de Sua boca.

As palavras, como as pessoas, são importantes e fazem falta; ou, são inúteis e sua ausência é um prazer. Às vezes, as palavras mais úteis são as que não são pronunciadas. Um amigo pode consolar sem dizer nenhuma palavra, basta sentar-se ao lado do que sofre e em silêncio oferecer-lhe o ombro. Nenhuma palavra será dita ou precisará ser dita, mas todo o carinho do mundo estará naquele silêncio.

Gerson Colombo

segunda-feira, 13 de abril de 2020

O CRISTO CONSOLADOR


Palestra realizada para a Associação Espírita Humberto de Campos
Tema: Quem é o Cristo consolador?
Referência: O Evangelho Segundo o Espiritismo - Cap VI O Cristo consolador
Palestrante: Gerson Colombo

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

A Palavra.

         “A palavra, como sabemos, é uma coisa viva.”, nos ensina Vitor Hugo. A palavra edifica, mas também destrói. O pensamento, prova inconteste da evolução, é a forja donde nos saem as palavras. E a palavra é a emissão do pensamento que se verbaliza. Diz-nos Joanna de Ângelis que mesmo dissimulando os sentimentos íntimos, é veículo de alta carga vibratória que nos desvela.
         Poucas foram as civilizações antigas que fizeram uso da palavra escrita para comunicar-se, contar a sua história ou revelar sentimentos. A oralidade, assim, era consideravelmente valorizada. Quando as palavras eram pronunciadas, emprestavam dignidade ao orador, e geravam confiança, força e poder tamanhos que selavam os pactos do cotidiano, tanto profano, quanto sagrado; nos acordos comerciais, legais, governamentais, quanto nas celebrações ritualísticas como casamentos, funerais, exorcismos. Foi falando, e escrevendo, que nos construímos. Pela palavra elevou-se a Índia de Ghandi, pela palavra foi destruída a Alemanha de Hitler. Pela palavra Jesus de Nazaré ergueu os sentimentos da humanidade para a Justiça, para o Amor e para a Caridade.
         O discípulo do Cristo deve falar e escrever com a cautela de quem escreve e fala para todos, e não somente para os seus. Com o cuidado de não expor e escandalizar com nenhuma letra a sua posição diante da Doutrina de Jesus. Ensina-nos Paulo em sua carta a Tito, 2:8: “Mostra (...) linguagem sadia e irrepreensível, para que o adversário se envergonhe não tendo indignidade nenhuma que dizer de nós.
         Mesmo que a dor nos assalte o íntimo, nossa palavra, para os outros, deve ser alentadora e equilibrada.  Todos temos nossos dramas, nossas necessidades, nosso posicionamento político ou filosófico, todos temos nossos medos e frustrações, mas a exteriorização das nossas queixas só aumenta a aflição de quem nos ouve ou lê.   Pela palavra nos revelamos ao mundo, pela palavra nossas paixões se expõem ou nossas virtudes se exaltam. Deixemos de lado as palavras acerca de temas que não nos dizem respeito e não acrescentam nada de produtivo em nossas vidas; e guardemos conosco as redentoras palavras do Divino Amigo, elas santificam a nossa jornada e nos servem de suporte nos momentos difíceis que nos exigem renovação.

sábado, 12 de maio de 2018

Alcateia - Folhas de Outono



Tem música nova lá no nosso canal do Souncloud!
Confira o som "Folhas de Outono", poesia de Gerson Colombo - Escritor, adaptada para o blues.
Baixo e Voz: Gerson Colombo
Guitarra e backing vocal: João Colombo
Guitarra Solo: Cauê Zinn Farias
Bateria e Backing Vocal: Jackson Buzzato

Tom: F#m
F#m                      D
  O céu ficou vermelho
           Bm                        F#m
  Anunciando a noite fria
           F#m                       D
  As folhas mortas de outono
            D                           F#m
  Forraram a rua vazia

                    F#m                       D
                        Ah! A solidão é assim,
                    Bm                         C#m        
                        Não adianta blefar,
                    C#m                       Bm
                        Mais uma noite enfim
                    Bm                         C#m
Deitado quieto a chorar
        Bm                          F#m
Ninguém espera por mim

F#m                            D
  Molhando o travesseiro
B                          F#m           
  De lágrima e suor
F#m                           D 
  As folhas mortas de outono
D                                F#m
  Me fazem sentir melhor
              
(refrão)

(Solo: F#m    D    Bm    F#m )   x 4

F#m                            D
  Outra vez é madrugada
B                                        F#m
  Minhas noites não tem sono
                                F#m
  Caminho na rua vazia
D                                                F#m
  Me perco co’as folhas de outono
            
(Refrão)

sábado, 3 de dezembro de 2016

MEU DESERTO - Apresentação por Jairo Luiz de Souza


Gerson Colombo nos apresenta um deserto totalmente poético, cheio de emoções latentes. Um deserto que deixa na areia escaldante, pegadas que nos levam para um Oásis onde as palavras lavam a alma, onde podemos ver a poesia no sorriso vazio e sem amarras de negra Lúcia.

A cada página, uma máscara caindo, deixando mostrarem-se os anjos e os demônios que carregamos dentro de nós. Colombo fala da aridez da vida com propriedade, narras as mazelas do ser humano com uma ironia sutil e inteligente. Sua poesia no sorriso vazio e sem amarras de negra Lúcia.

Meu Deserto é uma obra que nos cutuca, que nos remete a um universo de infinitos olhares sobre a vida. Meu Deserto é provocativo, te faz pensar, te faz se emocionar. É um grito, um uivo estonteante, onde o autor solta sua voz gutural e lírica.

Convido os leitores para desfrutarem a poesia de Gerson Colombo no seu imenso e profundo deserto. Tirem os sapatos e andem ao lado deste poeta. Descubram juntos a simplicidade da alma. Reflitam por meio da poesia em brasa que Colombo coloca ao alcance de todos nós. Pisem na areia do deserto e sintam os mistérios do ser humano. "Meu Deserto", o poema que dá título ao livro é de deixar o leitor em estado de "SOLILÓQUIO".

Com certeza você sentirá a necessidade de confabular com você mesmo. Depois da leitura desta obra, você terá a chance de reconstruir um novo olhar sobre a poesia. Na galeria dos grandes petas brasileiros, podemos inserir no contexto o nome de Gerson Colombo. Deixe na estante um lugar reservado para "Meu Deserto". O leitor não irá se arrepender de conhecer o universo poético que existe nas pegadas deixadas na areia por Gerson Colombo..

- Jairo Luiz de Souza

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Nenhum homem é uma ilha

               





            A frase título é de um poema do inglês John Donne. “Nenhum homem é uma ilha; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram também por ti.” Inspirado neste belíssimo e icônico poema do séc. XVI, Hemingway escreveu seu clássico “Por Quem os Sinos Dobram”, Thomas Merton escreveu “Homem Algum é Uma Ilha” e o imortal Raul Seixas compôs a música “Por Quem os Sinos Dobram”. Um poema que nos faz lembrar o que disse Aristóteles em “A Política”: “...o homem é um animal social. O homem que por si só se basta, não é homem; ou é um deus ou é fera.” Pois, então, nascemos para viver em comunhão com os outros, nascemos para uma vida de relação. Então, por que a solidão é cada vez mais presente e constante? A afetividade é mais e mais distante?       

            As relações virtuais e a tecnologia substituíram o afeto do toque e da companhia física. Poucos são os que têm paciência de escutar sem atropelar o outro com seus próprios problemas. É fácil encontrar-se grupos de pessoas sentadas à mesma mesa, em silêncio permanente, enquanto os dedos, sem parar, tamborilam o teclado do celular. Nem os garçons são mais chamados para aquela ajudinha com a fotografia do grupo, o “pau de selfie” substitui o braço amigo. Inumeráveis amigos no “face”, mas nenhum ombro para chorar. As poltronas eletrônicas substituem as mãos do massagista, onde regula-se o tempo e a pressão para movimentos repetidos pelo corpo, sem contato humano, ... em absoluta solidão. Conquistamos tecnologias e nos perdemos uns dos outros. Os fones metidos nos ouvidos nos desobrigam das gentilezas dos sorrisos ou dos “Bons Dias”. É o meu mundinho privado. Afastem-se todos vocês que não fazem parte do meu diminuto círculo de afeições! Cada vez mais diminuto. Substituímos a alteridade, o respeito pelo outro, pela indiferença. Mas, ainda é a voz humana que acalma, um abraço é sempre acalanto, um sorriso nos enche o coração de alegria. Se eu me dispuser a encontrar os outros, acabo encontrando a mim mesmo. Pode ser que nenhum homem seja uma ilha, mas, por enquanto, a humanidade é um imenso arquipélago. 

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Gerson Colombo fica em 3º Lugar em Concurso Internacional

É com alegria que compartilhamos com nossos leitores que o autor Gerson Colombo ficou em 3º lugar no 27º Concurso Internacional de Contos de Araçatuba - SP, com o conto "Pomo da Discórdia", integrante da obra A Empreitada. Confira! http://goo.gl/308nLh

Leia um trecho do conto "O Pomo da Discórdia", presente no livro A Empreitada:

"(...) Também estava lá o negro Adão, homem forte, mas não muito grande, educado, que não olhava nos olhos de ninguém e de quem não se conhecia passado, era homem de pouca fala. Mas, um que me assustava, era um certo Miro, um pelo duro, atarracado, de barba hirsuta, olhos maus, mesmo calado tinha jeito de encrenqueiro.

Ora, no galpão impera a civilidade. Todos são aceitos, todos são bem-vindos. Todos são ouvidos e todos podem ouvir e falar, só não o faz quem não quer. O fogo nativo, crepitando no chão, é o foco central daquela hospitalidade rude, mas sincera. Não há, ali, lugar para preconceitos. Os nacos de carne assada são iguais, os pratos de arroz com charque têm a mesma medida, sejam dados ao patrão ou a qualquer dos peões, a cuia de mate passa de mão em mão, sem distinção, aproximando e irmanando companheiros de mesma sorte ou infortúnio. Fora do galpão, na faina diária, a vida deve ter suas diferenças, as responsabilidades, de mando e de fazer, são desiguais só assim. Mas, à noite, no galpão, opera-se na mais pura lei de igualdade.

Os minutos se escoavam entre as conversas e as músicas do Plauto, a cuia do mate passava pela roda. A chaleira preta de fuligem chiava sobre a trempe ao lado de uma grande panela onde o arroz, feito para o jantar, ainda fumegava, uma sobra de um quarto de ovelha, atravessado num espeto largo, derretia suas gorduras sobre o braseiro, tchiiiiiii, impregnando o ambiente com seu perfume adocicado. Vez ou outra, um se aproximava e passava a faca pela carne, tirando-lhe uma ponta mais assada, e logo sêo Antero passava a salmoura pelo talho com um molhozinho de ramos de carqueja.

“Augusto, chê...” é o velho Libório quem pergunta “... e como foi a carreira do sêo Josino no domingo?”, “Pois! Que espetáculo, chê!...” responde o peão tragando o palheiro e largando uma fumaceira azulada sobre sua cabeça, “... quando largaram, se vieram parelhitos, no más! Isso até duas quadras, quando o tordilho do velho Silva se pôs na frente. Ah, mas com três quadras aquela égua do Flores foi entrando por fora e encostou, e se foi, à la cria, até a raia, com um corpo todo de frente.”, “É! Aquela égua é para tudo. Que qualidade!”, “Eu mesmo ganhei alguns mil réis naquela cancha, mas houve quem forrasse o poncho...”. Um outro perguntava ao pai pelas notícias do rádio, se ia mesmo haver guerra na Orópa, se o doutor Getúlio não queria juntar de novo uma gauchada para ir dar tunda nos alemães; outro, a um canto, perguntava se já não tinham visto o caminhão Chevrolet novo do vizinho, o sêo Ribeiro; alguém falava que os moirões da cerca da invernada do fundo estavam comidos de cupim, que o aramado logo ia abaixo; havia reses com berne precisando de banho de Creolina; a geada estava maltratando o pasto das invernadas; em tudo o pai prestava atenção e só com o olhar se acertava com sêo Antero, o capataz, para que de tudo desse providência; e eu, ouvia, e maravilhado aprendia.(...)"

domingo, 1 de junho de 2014

ENCONTRO COM ESCRITOR - 30ª Feira do Livro de Canoas


Vamos bater um papo sobre literatura, minha obra e sobre o que surgir no momento!

O encontro será na 30ª Feira do Livro de Canoas, no dia 5 de junho, às 9h na Praça da Bandeira.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Pequena exortação à vida

Anda, minha gente, desperta! Olha ali, é a vida passando! Os sabiás já enchem os dias, desde cedo, na madrugada, e o verão ainda nem é. Meu coração tem a pressa e a necessidade de preencher os vazios, tem a ânsia de saltar para frente; talvez o corpo, já ferido e doloroso, não responda como deve; ou talvez saltar ficou para trás com o menino que fui. Mas, a alma, essa sim, ainda quer cantar com os sabiás, e eu nem sabia. Olha, gente, tudo é irreal, até a angústia é impermanente. A esperança está dispersa. A única verdade é juntá-la. A expectativa por tudo que é bom e simples, por tudo que é belo. Os netos e seus avós; crianças rindo e brincando, todas iguais, sem classe social; cheirinho de chiclete e livro novo; a saudade do amigo distante; o romance que se quer lançar e se torce para que dê certo; a chuva mansa que refresca os dias; ouvir a brisa boa que refresca as tardes penteando a copa das árvores; ver quem lança mais longe, às cusparadas, os caroços de melancia; escutar a Elis e o Tom, “... é pau é pedra, é o fim do caminho...”; mergulhar na alegria do George, “Here comes the Sun...”, “My sweet lord, aleluia!”; dividir uma garrafa de vinho com quem se ama, numa mesa de comida simples; conseguir o acorde certo no instrumento que se toca; trazer em si a alma inquieta do filósofo; soltar peão com o neto..., ufa! Mas, são tantos desencontros. Alguma coisa está fora da ordem para a qual fomos criados. Como nos mutilamos, Deus, ao longo da vida. E nos fechamos e não vemos que a vida passa.
            A dimensão de tudo agora é virtual. A culpa de tudo que dá errado é do “sistema”, um ser amorfo, sem rosto, estúpido, pois erra sempre e em todos os lugares. Ninguém mais é responsável por seus erros, continuamos todos adolescentes. Os abraços são as palavras escritas, sem convicção, na rede social. Mas, o beijo e o cheiro do outro continuam essenciais. Estamos ficando cegos e surdos apressados, com os fones do celular enfiados nos ouvidos. Não queremos, mas nos embrutecemos; não queremos, mas estamos virando coisas, números; espremidos nas ruas cheias, já não vemos a beleza que passa, as crianças que choram, os velhos perdidos, vagos, nem vemos a indigência sincera que precisa. Gel no cabelo, paletó e gravata, podemos fazer tudo sozinhos. Arrogantes, orgulhosos, doentes da alma que aos poucos se perde, nos arrastamos para a indiferença, para o insensível. Desvalorizamos o humano e queremos mais “ter” do que “ser”. Quando a tristeza bater, com o nome de “depressão”, tomara não seja tarde para buscar qualquer coisa que faça sentido na vida.
            Anda, minha gente, desperta! “A vida é mais que o alimento e o vestuário. Olhai as aves do céu; elas não semeiam, nem colhem, contudo Deus as sustenta. Vós não sois mais que as aves? Não vos inquieteis sobre o vosso vestuário. Olhai os lírios do campo, eles não tecem e não fiam, no entanto, vos afirmo, que nem Salomão, em toda a sua glória, vestiu-se como um deles. Se Deus vestiu assim a erva do campo, o que não fará por vós, homens de pouca fé?” O verão ainda não é, mas as crianças e os pássaros já o sentem, vivendo a simplicidade. Sem desesperança, sem mentiras.
            Pensem nisso.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Vergonha

                               
(Mais uma palhinha de "A Empreitada")

                                Já não chove àquela hora. Pela janela aberta do último ônibus da noite, chega, às narinas de Osvaldo, o cheiro da terra molhada pela chuva da tarde. Chuva mansa, chuva boa, chuva de lavar telhado; chuva que, durante a tarde, caindo sobre as folhas de zinco da fábrica, ensurdeceu mais que o matraquear das máquinas. A cabeça pesa-lhe agora, mas não é sono. Sente peso no estômago e náusea, mas não lhe vem o gosto amargo da comida azeda da marmita requentada no seu almoço de operário. Os braços pesam como chumbo, mas não é pelo cansaço da hora extra. Aquela última hora extra, cumprida no silêncio aterrador da velha fábrica, já vazia de mãos e almas. Mas, suas mãos, naquela última hora, produziram a última peça e, só então, deixou esvaziar a alma. Pesam-lhe a cabeça e os braços com um peso de uma angústia, um medo, uma insegurança, uma dor, uma vergonha. Em casa, os dois filhos pequenos dormem aconchegados à mãe que espera. Não suportaram o sono na espera pelo pai. A casa pobre, tijolos sem reboco, um corpo com veias à mostra, infindável construção. Um lar feito aos poucos, com o pouco das sobras anuais. Hoje, Osvaldo leva dinheiro para casa. Dentro da bolsa de operário, ao lado da marmita vazia, descansa o envelope com o último pagamento. O ônibus, praticamente vazio, já chacoalha pelas ruas esburacadas de seu bairro, gente pobre e excluída das benesses da administração pública. Ao cheiro da terra molhada se junta o gosto de sal de uma lágrima. Lágrima furtiva, que nunca vem fácil aos olhos de quem tem vergonha. Osvaldo engole o gosto de sal quando se aproxima da sua parada mal iluminada; parada que projeta um trapézio de sombra sobre os buracos alagados da sua rua pobre. Como explicar aos filhos e à mulher? Amanhã ele já não trabalha mais. Dentro da bolsa de operário, ao lado da marmita vazia, descansa o envelope com o último pagamento. Envelope com um pouco de dinheiro a mais que o costumeiro; o dinheiro dos acertos finais do aviso prévio e o começo da angústia, do medo, da insegurança, da dor e da vergonha do desemprego.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Clipping - Jornal ABC - 14/07/2013

O recorte abaixo é de publicação do Jornal ABC do Rio Grande do Sul, de domingo, 14/07/2013, na coluna Sala de Leitura, de Jane Regina Mathias.


A Empreitada - (Ed. do autor, 123 p., 25 reais) Gerson Colombo. O livro reúne doze contos cuja linha mestra é "a de uma luta sem quartel, que o homem deve empreender para vencer suas más tendências, conhecendo a si mesmo, reforçando-se em suas  virtudes e combatendo em si os próprios vícios morais", conforme ressalta o autor na apresentação da obra. Os contos falam sobre luz e treva, a violência de supostos humanos sobre seres indefesos, a fraternidade em xeque, a velhice, os absurdos da convivência, o trabalho mal remunerado, a infância marginalizada, a sabedoria da natureza, o desgoverno oficial. Vergonha é um dos contos mais curtos, mas nem por isso deixa de ser um dos mais profundos. São palavras escassas, bem escolhidas, para relatar uma realidade cruel: a dor infinita de um pai de família que perde o emprego. Em Cenas Curtas Colombo fala sobre os absurdos encontros e diálogos, entre pessoas que, lamentavelmente, são bem reais. São situações estranhas a que todos se sujeitam num mundo como o atual, no qual ninguém parece querer ouvir ou entender o que o outro diz.


sexta-feira, 21 de junho de 2013

Chegou a Primavera, estão voltando as flores.





       Acabou-se a letargia do sono em “berço esplêndido”. O Gigante acordou é o que dizem as ruas. E ao que parece para uma longa vigília em favor do bem comum. Quem tiver ouvidos de ouvir que ouça. A minha geração tremia, de raiva e não de medo, nos tempos da repressão, do abuso de poder, da tortura, do “sabe com quem está falando?”, da inflação mascarada, do uso da Previdência para construir pontes e estradas, da corrupção abafada pela censura, das eleições indiretas. As ruas, então, se encheram como agora. “Diretas já!”. Voltou o poder do povo e para o povo. Mas, o povo foi traído novamente. De volta às ruas, então! Agora de caras pintadas: “Fora Collor!”, e o presidente caiu. E os exilados, presos e torturados chegaram ao poder. “Agora a coisa vai! São políticos de boa cepa!”. Qual o quê... Agravaram-se a corrupção, a impunidade, a violência urbana, uma exorbitância de impostos sem o retorno devido, a Educação em petição de miséria, a troca de apoio no Congresso por dinheiro, condenados julgados gozando de liberdade, o caos na saúde pública, a delinquência juvenil impune e sem controle. Fica o gosto amargo de saber que os nossos eleitos não nos representam. E as obras para a Copa? A Grêmio Arena, particular, sem dinheiro público, erguida do zero, ficou em quatrocentos milhões; a “reforma” do Maracanã, obra pública, custou um bilhão de reais. A senhora “presidente”, em Roma, hospedou-se em hotel de luxo, com sua comitiva, ao custo de dezenas de milhares de reais, desprezando nossa Embaixada e a inteligência do povo. Temos mais? Ah, tem... Tem o mensalão, com a “eminência parda” do Lula, inexplicavelmente fora do processo, tem o Renan, tem o Feliciano com a “cura gay” (Meu Deus!), tem a Hidrelétrica de Belo Monte, temos os foros “privilegiados”. Temos desigualdade, enfim! Mas, a rua não tem estatutos. O simples aumento nas passagens de ônibus em Porto Alegre serviu de estopim para incendiar o Brasil. O povo, nas ruas, clama por consertar qualquer coisa que entenda injusta, rejeitando Partidos, tanto faz situação ou oposição (que parece não haver), e que não são bem vindos. A exemplo das primaveras espalhadas pelo mundo, desde o “occupy wall street” passando pelo mundo árabe e pela Europa, a nossa primavera parece ter chegado no começo do Inverno. Ninguém, em sã consciência, quer o vandalismo, que seja reprimido com dureza. Mas, a manifestação pacífica...? Deixem o povo nas ruas! A classe política, se tiver ouvidos de ouvir, que faça seu trabalho decentemente. Vejam! Estão voltando as flores. 

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Lançamento A Empreitada

Foi um grande prazer receber amigos leitores e leitores amigos no lançamento de "A Empreitada". Aconteceu no BooKafé da 29ª Feira do Livro de Canoas, em 11 de junho. Obrigado, um grande abraço a todos!
Ah! Aproveitem a leitura! Quem sabe, a partir daí, não iniciamos todos a nossa empreitada?




















terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A Empreitada


                       Dia desses, durante um almoço de família, minha nora Raquel, perguntou-me qual seria a expressão latina que mais me cativava. Depois de uma breve consulta aos escaninhos da alma (e aos da memória, que o meu latim já se vai há muitos anos), lembrei-me de “Vincit qui se vincit”, algo como: só vence quem vence a si mesmo. O profeta do Islã, Muhammad, deu a esse brocardo da Filosofia romana uma visão religiosa, chamando-a de “Jihad”, mal traduzida pelos ocidentais, ao tempo das cruzadas, como a “guerra santa” que os muçulmanos empreenderiam contra os infiéis. Mas, Muhammad estabelece duas jihads, a “Jihad maior” que descreve como uma luta do indivíduo consigo mesmo, pelo domínio da alma imortal, pela sua melhoria como ente humano fiel a Deus; e a outra, a “Jihad menor”, que seria o esforço para levar o Islã ao mundo inteiro. Prefiro a visão desta jihad maior, que se enquadra mais no conceito latino, de uma luta sem quartel, que o homem deve empreender para vencer suas más tendências, conhecendo a si mesmo, reforçando-se em suas virtudes e combatendo em si os seus vícios morais, e isso mesmo que não tenha nenhum vínculo religioso, uma vez que, ainda que o homem não acredite em Deus, sente que melhorar sempre mais como indivíduo, acaba por “contaminar” a sociedade com a gentileza, a educação, a urbanidade, a civilidade, a misericórdia, a compaixão. Outras vezes, essa luta deve ser travada contra a apatia, contra o medo, contra a mediocridade, contra o inexorável destino que é a morte, venha ela como vier, sem receios e com altivez. Eis a grande Empreitada do homem sobre a terra, reconhecer em si o seu maior inimigo, viciado, pequeno, egoísta. Avançar sempre, a cada dia, sobre a ignorância, a superstição, o preconceito, a ambição que, teimosamente, habitam em nós. Começando em nós, transformando a sabedoria e o conhecimento em ação positiva, haveremos de mudar para melhor a sociedade e o mundo. Vincit qui se vincit, vencer a nós mesmos. Que empreitada!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Então, eu conto!


Sonho de infância.


            Julinho é um menino mirrado, tem oito anos, mas isso ninguém diz por que ele aparenta só ter uns cinco. Ele é assim mesmo, amarelado, raquítico, desnutrido, de crescimento ruim para a idade; o que se percebe, no meio do rosto esquálido, é este par de olhos vivos, matreiros, como os olhinhos de um rato. Sua inteligência é curta, chega quase à idiotia, mas é esperto, isso sim, como qualquer bicho, já é ágil nas manhas da sobrevivência. Brinca no meio da rua, quase sempre está sozinho; pés descalços, roupa imunda, cara suja, olhos remelentos, nariz sempre fungando; dá uma corridinha e puxa as calças largas para a cintura. É invisível para a maioria dos que passam, por isso é uma criança triste e solitária.
            Mora no meio do beco sórdido, sempre sujo, cheio de lixo, num barraco de madeira de um cômodo só. Cozinha, sala e quarto misturados em promíscua confusão de mobília e trapos que se espalham pelo chão ou pendurados em pregos pelas paredes. O banheiro é uma casinha de madeira nos fundos do barraco, onde as aranhas e as baratas moram. Ali vive com a mãe e outros três irmãos: uma menininha de cinco anos, outro de três e outro que ainda chupa o seio minguado. Do pai não sabe nada, nem ao menos quem seja. Dormem todos na mesma cama desde que o atual companheiro da mãe foi levado pela PM; isso foi naquela noite de gritaria e confusão, a polícia batia, o homem gemia, a mãe gritava; levaram o homem no carro com as luzes girantes, a mãe chorou baixinho olhando a porta do barraco que ficou escancarada, depois, silêncio de novo. Antes disso acontecer, só o homem dormia na cama com a mulher; elas, as crianças, dormiam no chão, sobre uns panos velhos improvisados que eram seus colchões. Dormir no chão era frio, era duro, doíam-lhe as costas, e ele tinha medo das baratas. Não gostava daquele homem. Ele batia na mãe, vivia bêbado; e quando a mãe não estava, o homem botava-o para fora e ficava só com a irmã menor trancado em casa. Julinho colava o ouvido na parede do barraco e escutava o homem gemendo e fungando, até a irmãzinha começar a chorar. Além de tudo, o pior, aquele homem roubava seu lugar quente na cama da mãe.
            Julinho não estuda, não faz nada, apenas respira e anda. Sente uma fome constante e seu sonho de infância era dormir num colchão só seu. A mãe manda-o para rua de manhã cedo e diz que só volte à tardinha; e que tenha comido pela rua, porque em casa não há o que sustente a todos. Ele nunca se aventura muito longe de seu beco, perambula pelas redondezas fungando e puxando as calças. Sabe que alguém vai lhe dar o que comer, não sabe quem, não sabe onde; mas, como um rato, instintivamente, sabe que vai comer. O lixo pode conter maravilhas gustativas para quem nada tem. Anda por ali sozinho, ninguém se importa com ele, e ele também não faz importância da solidão; pelo menos, não terá de dividir com ninguém a comida que encontrar. Corre solto, livre pela rua, falando alto, alheio as pessoas e ao mundo a seu redor; corre montado num galho seco que é seu cavalo negro, de espada na mão, assim como o mocinho mascarado que viu num cartaz pregado na porta daquilo que ele chama: “uma loja de filmes”. As outras crianças que encontra não lhe interessam, não faz caso delas. Nenhuma delas sequer olha para ele, nenhuma jamais vai querer brincar com ele.
            Volta para casa e já é quase noite. No meio do beco, em frente ao barraco, está parada uma Kombi branca com alguma coisa escrita na porta que ele mesmo não sabe ler. Dentro do barraco há um soldado PM e outras pessoas. A mãe está chorando, sentada a um canto, olhos vidrados, catatônica, deserdada da sorte, desencantada com a sua miséria. Julinho, sem rir, acha graça na cara apatetada da mãe. Uma das moças vem falar com ele, diz que é de um tal “Conselho Tutelar” e que veio buscar a ele e aos irmãos para morarem numa outra casa, mas que a mãe não pode ir junto, que eles ficarão todos bem, que irão tomar banho e comer todos os dias. Julinho olha para a mãe e para o barraco imundo, volta-se e pergunta à moça se vai poder também dormir num colchão só seu. “Vai tomar banho, trocar de roupa, brincar, jantar e dormir numa cama bem limpinha”.
            Julinho agora vai feliz dentro da Kombi, já não pensa mais na mãe que ficara chorando sozinha no barraco sem luz. Está aliviado, sorri satisfeito, até que enfim, vai poder dormir numa cama com colchão. Longe das baratas. Um colchão só seu,... Só seu!



*


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Esqueci meu Passaporte



              Chegamos de viagem. Voltamos para casa, a Zildinha e eu, depois de uma curta temporada em João Pessoa. Trazemos, ainda, nas retinas, aquela beleza toda, aquela cor de esmeralda que é do morno mar da Paraíba. Coqueiros, coqueiros, coqueiros altíssimos, ao longo das praias, cheios de cocos, vejam só. A Ponta do Seixas, o ponto mais próximo da África de todas as Américas. Eles dizem que se você tomar um gole da cachaça local e firmar bem os olhos começa a ver as girafas e elefantes do outro lado, se não conseguiu ver, é por que bebeu pouco. O pôr do sol no Jacaré, ao som do Bolero de Ravel, é inesquecível. A feirinha de artesanato no Tambau é parada obrigatória. Ruas limpas, trânsito ordeiro, árvores, muitas árvores. Mas, o melhor de João Pessoa, apesar da beleza desbundeante, são as pessoas, é a gente de lá que faz o melhor de lá. Educados, gentis, interessados, hospitaleiros, e muito alegres. Uma alegria simples e contagiante. Um povo sem afetação. Nós, aqui do sul, estamos meio desacostumados da gentileza. Lá, recebíamos “bom dia!” de qualquer um que nos cruzasse o caminho. Uma coisa, por aqui, cada vez mais rara. Bem, mas como tudo que é bom, dura pouco, tivemos que voltar para nossa realidade.
                 Como num filme ruim, corta e muda de cena. Chegamos ao Aeroporto do Galeão para conexão para Porto Alegre. A gentileza de João Pessoa ficou em João Pessoa. A menina da GOL, na boca de saída daquele tubo, só disse: “Conexão para Porto Alegre: 2º andar, ala C.” E deu! Nenhum sorriso, nada de Boa tarde, Por favor me acompanhem, nem pensar. Fomos largados no saguão externo do Galeão, abarrotado de gente, e nós em conexão, sem saber onde é que tínhamos de ir. Bem, pergunta daqui e dali, sobe e desce escada, e chegamos a tal ala C. Pois, é o Embarque Internacional. E nós com bagagem de mão, vindos da Paraíba, só tentando voltar para o Rio Grande. Nova inspeção da ANAC. A Zildinha já ficou. Claro, na bagagem dela estavam perfume, desodorante, cremes de mão, de rosto, essas coisas todas e mais minhas seringas para a insulina. “Isso não pode passar.”, “Mas, como? Estamos em trânsito para Porto Alegre.”, “Não posso fazer nada! Regras da ANAC. Aqui é ala internacional.”, “Nós não temos nada com isso, a GOL nos deixou sozinhos...”, “Não posso fazer nada..., ou despacha de novo ou fica tudo.”, “Não tenho mais bagagem para despachar, fizemos o embarque em João Pessoa. Estamos num voo doméstico.”, “Não, não está! Esta é a ala internacional...”, enfim, perdemos a disputa,  deixamos o que tinha de ser deixado. Aliviaram a minha insulina.    

                    E toca em frente, olha a hora do embarque. Então, damos de cara com um brete que fazia voltas no salão. Aquilo lotado de gente, umas trezentas pessoas. Era a imigração. Cacete! Eu só quero ir para o Rio Grande. E o alto-falante berra: “Passaportes à mão! Todos estão sujeitos a nova inspeção, de acordo com a Lei Nº sei lá o quê.” Como assim passaportes? Tá certo que o Rio Grande só perde para o mundo em tamanho. Mas, que eu saiba, um cidadão rio-grandense não precisa de passaporte para voltar para o seu pago. Masaaahhh! Era o que faltava. E eu ali, suando feito porco, carregando bagagem de mão, mais brabo que cavalo xucro. Pois, atravessamos reto o tal do brete esse. Chamei um policial federal que ajeitava aquela fila, expliquei nossa situação, ele deu um xingão na ANAC e na GOL, e nos mandou passar apara o embarque. Depois de tudo, o voo ainda atrasou uns 40 minutos, nós escapamos do passaporte, mas a tripulação do avião não. Tiveram que enfrentar aquele brete. Então, agora quem é que vai dizer que não se precisa de passaporte para entrar no Rio Grande?

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